Apostila de Contrabaixo Elétrico idealizada, escrita e editada por Fernando Tavares.
Esta é a primeira parte de uma série de apostilas com aulas específicas para contrabaixo elétrico.
A apostila está dividida em 24 unidades de estudo que contém harmonia, teoria, técnica e estudos para aplicação dos assuntos aprendidos. No final ainda são disponibilizadas quatro músicas para aplicação dos estudos compreendidos na apostila.
Os materiais são organizados desde as primeiras noções de música até a compreensão das primeiras ideias estruturais para o desenvolvimento de uma linguagem musical. Os assuntos vão desde nome das cordas até construção das escalas maiores, passando por intervalos, sendo este material intercalado com noções de leitura de partitura aplicada ao instrumento e domínio da técnica de pizzicato e de digitação para a mão esquerda.
A apostila contém 27 faixas de playbacks para aplicação dos estudos disponibilizadas em um arquivo digital.
Esta foi construída através de pesquisas e conteúdos adquiridos pelo autor como professor de Contrabaixo Elétrico durante mais de vinte anos. A ideia é que cada unidade de estudo se apresente conforme a necessidade de aprendizado do aluno, abrangendo os conceitos básicos de Harmonia, Teoria, Técnica e Repertório.
O autor é um dos mais renomados e reconhecidos professores do instrumento no país. É autor de 243 publicações nas revistas Coverbaixo e Bass Player Brasil, além de ser um dos mais ativos musicólogos do país, com o título de Mestre em Musicologia pela USP (Universidade de São Paulo).
O material foi idealizado tanto para o aluno que está iniciando, quanto para o professor do instrumento que necessita de um conteúdo didático completo.
Estamos de volta com mais uma coluna Artigos e Resenhas aqui no nosso site. Dessa vez o sensacional Luiz Domingues nos fala sobre o álbum DoisMilEVinteUm (Povo Brasileiro)/Zé Brasil - Por Luiz Domingues.
A matéria original pode ser encontrada neste link.
Sou músico e escrevo matérias para diversos Blogs. Aqui neste Blog particular, reúno minha produção geral e divulgo minhas atividades musicais. Como músico, iniciei minha carreira em 1976, tendo tocado em diversas bandas. Atualmente, estou atuando com Os Kurandeiros.
Sem mais, vamos ao texto do Luiz:
CD DoisMilEVinteUm (Povo Brasileiro)/Zé Brasil - Por Luiz Domingues
Zé Brasil é um artista super criativo e inquieto por natureza. É arquiteto pela sua formação acadêmica e como artista, atua como um multi-instrumentista, cantor, compositor e letrista, além de também se mostrar atuante como, produtor musical & fonográfico. Enfim, ele não para de trabalhar.
A sua trajetória artística vem de longe e sempre em boa companhia, cercado de talentos, Zé Brasil começou com apresentações musicais e atuação teatral em 1971 e até 1973, atuou com bastante profusão no circuito de teatros paulistanos, na TV e no rádio.
Depois de uma passagem pelos Estados Unidos ele voltou ao Brasil em 1973 e participou com o ex-Mutantes, Arnaldo Baptista, da fundação do grupo de Rock, Space Patrol, e nessa fase, segundo o próprio Zé Brasil me revelou, eles trabalharam com um som bastante psicodélico, com entrada na seara do Hard-Rock e Prog-Rock, igualmente, além de ter havido uma boa influência da música Folk de raiz como uma proposta trazida para a banda em adendo pelo próprio, Zé Brasil. E como mais um dado histórico, muitas das canções da parte do Arnaldo, foram aquelas que ele gravaria a seguir em seu disco solo, "Loki?"
Discos e formações do Apokalypsis nos anos 1970. Fotos: Marcia Rebello (in memoriam) e Carlos Hyra (in memoriam), Revista POP e tela “Love Supreme” de Antonio Peticov.
Em seguida, o Zé Brasil criou o grupo de Rock, "Apokalypsis" em 1974, mediante uma história bonita em favor do Rock Progressivo e do Jazz-Rock, recheado com grandes músicos na formação.
Em pleno astral hippie/zen budista, o casal/dupla vocal e com os respectivos nomes estilizados nesta época: "Maytrea & Silvelena". Foto: Marcia Rebello (in memorian)
Em 1975, com a cantora, Silvia Helena, a sua parceira de arte & vida, deu vazão a seguir para a criação da dupla Folk-Rock, "Maytrea & Silvelena" a apontar para a música com forte identificação com a espiritualidade.
Diversas atividades oitentistas desenvolvidas pela dupla, como: José & Silvia, com o grupo Delinquentes de Saturno e grupo UHF. Fotos: Internet
A partir de 1978, uma boa temporada europeia sobreveio e a configurar a cidade de Londres como a base do casal, a todo vapor a lançarem discos e a se apresentarem, até 1981, quando a dupla voltou ao Brasil. E a carreira prosseguiu, quando buscaram a modernidade cibernética dos anos oitenta, via José & Silvia, igualmente com o grupo UHF, além da banda, Delinquentes de Saturno.
Em pleno século XXI, 2005 para ser específico, Zé Brasil se lançou em um grande mergulho em prol do resgate aquariano dos bons tempos sessenta-setentistas e assim liderou o movimento: “70 de novo” (este criado em 2006), ao lado de Nico Queiroz a promoverem shows memoráveis e recheados com grandes artífices da produção artística do Rock Brasileiro ligada à tal década citada, com ele (Zé Brasil) incluso, logicamente, além de gerir uma infinidade de páginas e grupos em diversas redes sociais para resgatar a memória da produção artística Rocker dessas décadas e também fomentar a cena em voga, com artistas novos em plena atividade e declaradamente influenciados por tal estética vintage.
Zé Brasil também foi muito intenso ao usar a sua própria gravadora ("Natural Records", que ele fundara em Londres no ano de 1980), quando montou um catálogo enorme com muitos discos resgatados de suas antigas bandas, mediante o material desengavetado que veio à tona e sobretudo, ao abrir a possibilidade de se criar novidades com material inédito, ao lançar discos em profusão.
Desta feita, o último trabalho dele se chama: “DoisMilEVinteUm” um disco que foi muito além da prova de resiliência de um artista que resiste bravamente em um ano que será lembrado no futuro pela pandemia, caos social, máscaras e medo da morte iminente para todos os Seres Humanos do planeta.
Isso porque o álbum não será lembrado no futuro apenas pelo seu título, a demarcar esse ano em específico, mas certamente por ser uma peça de arte da melhor qualidade.
Eclético, Zé Brasil seguiu a sua linha diversificada como compositor, a passear com desenvoltura por vários estilos. Do Rock’n’ Roll tradicional ao Blues, do Rock Progressivo à Psicodelia, do Reggae à MPB, do R’n’B ao Pop, ou seja, neste disco há tudo isso e contém espaço igualmente para o experimentalismo sob o viés erudito, mediante uma busca metafísica pelas altas vibrações de outras esferas superiores, através das evocações esotéricas & afins.
Para este álbum, Zé Brasil que mantém regularmente em atividade o Apokalypsis com uma formação mediante excelentes músicos, se esmerou para convidar inúmeros outros músicos ilustres e assim ele montou uma verdadeira constelação com artistas sensacionais.
Sobre a capa, cabe destacar que a ilustração frontal se trata de uma obra do artista plástico, Cipriano Souza, denominada: “Solidão” (de 2015) e traz como imagem, uma ideia de brasilidade muito grande ao insinuar a presença de casas germinadas e bem coloridas ao estilo colonial, a denotar alguma localidade interiorana aprazível e que assim passa a ideia da diversidade cultural do povo brasileiro.
Cabe a ressalva que este álbum teve um outro título em sua versão para as plataformas digitais e neste caso, ele é também conhecido como: “Povo Brasileiro”, portanto, tal ilustração se coaduna bem com tal mote e em sua concepção teve o lay-out e arte-final assinados por Rafael Conny e fotos da contracapa da autoria de Dean Claudio.
A canção que abre o álbum é: “Povo Brasileiro” e apresenta a grande expedição antropológica do Zé Brasil em sua busca pela essência das raízes do nosso povo em torno da sua riqueza, a se entender essa máxima sob uma amplitude contracultural óbvia da parte de quem se expressa através do Rock, mas que pensa através do aspecto macro, por natureza intrínseca.
Canção agradabilíssima, é versada pelo R’n’B com pitadas generosas do Rock’n’ Roll básico e com sabor cinquentista delicioso, mas contém igualmente uma boa influência do estilo Country-Rock, que é um achado para engrandecê-la. Tudo soa bem, incluso a excelente mixagem que privilegiou a presença de muitos desenhos executados pelo órgão Hammond e pela guitarra, sobretudo.
No caso desta letra, de autoria de Nico Queiroz (este, a se tratar de um jornalista e compositor proeminente desde os anos setenta), o recado é dado com uma letra bem escrita a se ressaltar o alto astral e ao fazer uso em certos versos de uma poesia psicodélica sob o sabor sessentista, ao utilizar imagens surreais muito interessantes.
O refrão é bem vibrante, ao fazer uso de uma concepção bem em torno do conceito “bubblegum” sessentista em sua essência melódica.
“Onde como for te amo, meu amor/onde como for te amo, minha flor”
Acrescente-se como um bom ornamento vocal o apoio dos backing vocals que é muito bom no uso do clássico onomatopaico: “Whabthuma, whab whabthuma”, que valoriza demais a canção.
A segunda faixa contém um balanço incrível. Chama-se: "Bicho Grilo".
O passeio do piano não deixa dúvida que esse molho é inspirado no melhor do R’n’B e como é bem tocado! São desenhos melódicos, extremamente ricos em sua resolução.
A participação da guitarra é excelente, com muita criatividade e com um tremendo timbre, fator de muito bom gosto da parte de quem é exímio, de fato, tanto na execução quanto na preparação de áudio.
O baixo balança forte, também com um belíssimo timbre e orna com a bateria de uma forma vigorosa.
Nesta canção, que é muita convidativa à dança, a letra escrita por Edu Viola, outro parceiro do Zé Brasil de longa data, faz uma brincadeira muito criativa com a figura estereotipada do “Bicho Grilo”, aquele padrão tão vilipendiado da parte de alguém que pautara a sua existência a partir de certos paradigmas gerados em uma época em que não viveu e por não entendê-la exatamente, sobretudo. Eis que assim tal persona se forjou como uma caricatura do que ouviu dizer, na prática.
Pois então essa espécie de neo-hippie anacrônico é devidamente retratado através da letra, com muito bom humor, ao se enumerar alguns dos seus comportamentos habituais vistos pelas ruas e isso é muito divertido.
Gosto da melodia, da letra e da interpretação do Zé Brasil que brinca com tal persona ao dizer:
‘Pega o Bicho Grilo, pega/Bicho Grilo, olha o bicho grilo”...
Em “Festim do Fim”, a opção pelo reggae é clara e mais uma vez, Zé Brasil, com o apoio da cantora, Silvia Helena, cantam em duo em diversos trechos, com grande graça.
As intervenções dos teclados são ótimas mais uma vez e as guitarras, idem, uma delas a cumprir o papel padrão do estilo, ao marcar o contratempo intermitente e a outra a desenhar livremente com um timbre favorecido pelo “drive” muito bem escolhido.
Tais intervenções enriquecem por demais a canção, inclusive com a feliz intervenção de um solo em dueto da parte da guitarra, a se revelar muito melódico.
“Beautiful People” é uma bela balada, com o forte senso do Rock rural setentista, que não temos mais em voga, infelizmente, mas eis que o Zé Brasil nos traz essa conexão perdida e assim, nos possibilita voltarmos a acreditar que há esperança, como diz a letra da canção (esta é também de autoria de Nico Queiroz), em certo momento:
“Beautiful People, tocando e cantando, música no ar, mudando... tem que mudar”
Trata-se de uma melodia muito bonita e a mensagem expressa pela letra é um convite para que busquemos esse mundo fraternal, tão sonhado na década de sessenta, sobretudo.
A incidência de um arranjo fortemente inspirado na psicodelia da década de sessenta é um primor e claro que se coaduna perfeitamente com o espírito da obra.
A próxima faixa, “Momentos de Glória” é um Folk-Rock delicioso em sua constituição geral. Harmonia, arranjo, melodia, timbres e intervenções dos instrumentos, enfim, tudo soa magnificamente bem.
A letra (de Nico Queiroz), traz uma proposta muito interessante ao traçar paralelo com a esperança por dias melhores em contraposição com as questões pueris do cotidiano em torno da sobrevivência, ou seja, foi uma forma de protesto inteligente ao sistema e sim, a citar Bob Dylan de uma forma explícita, portanto, é de uma criatividade muito grande ao aludir sobre tal artista em si e a usar de algumas menções das canções compostas por Mr. Zimermman, como uma forma de homenagem.
“Mistérios Universais” é a próxima faixa. Trata-se de uma canção com forte apelo em torno do Rock Progressivo setentista, a conter uma execução virtuose da parte de todos os instrumentistas que a gravaram.
Gostei muito da melodia, propositalmente dividida fora da condução instrumental a trazer uma sofisticação ímpar à proposta da canção.
Mais uma vez, Zé Brasil e Silvia Helena impressionam pela construção da linha vocal não usual e no quesito da letra, a ideia foi também buscar a ousadia, ao fazer uso de formulações que se não são exatamente fruto da poesia concreta, ao menos flertam com tal estética.
“Desterrado no Cerrado” é também uma faixa fortemente influenciada pelo Rock Progressivo setentista, mas neste caso, sob o viés da MPB sofisticada que existiu com sucesso nessa década e que realmente bebeu em tal fonte nobre do Rock.
Mais uma vez a harmonia é muito bela e assim deu espaço para que os músicos criassem linhas robustas, com forte senso melódico e a se destacarem igualmente pelos belos timbres obtidos e com grande proeminência.
E a letra, escrita pelo lendário, Rolando Castello Junior, traz uma poesia de qualidade, como por exemplo, a se destacar:
“Desterrado no Cerrado/meu futuro vou mudar/não posso deixar minha vida ser um caso encerrado/desterrado no cerrado”...
“Tempos de Blues” é um primor. “slow blues” de primeira qualidade em toda a sua liturgia clássica, tem ali a sua condução lenta, permeada por solos de guitarra de arrepiar e um piano a pontilhar com bastante sentimento.
E interessante que mesmo ao respeitar os signos clássicos do gênero em termos de arranjo instrumental, que a letra proposta pelo Zé Brasil não tenha usado de clichês ao falar sobre estações de trem, campos de algodão ou sobre amores perdidos em meio a bares esfumaçados, mas inovou ao buscar uma linha diferente e neste caso, a sua verve contracultural, mais uma vez se fez eloquente ao dizer:
“As nuvens embaçam o sol outonal/o povo procura, espera um sinal/da grande mudança, da Era da Paz/da luta vencida do bem sobre o mal”
Gostei muito do backing vocal, com sentido gospel, muito bem arranjado, que abrilhantou a canção.
A faixa seguinte, “Rock 2000” é uma verdadeira festa, com um altíssimo astral. O arranjo é muito rico com a inserção de solos de guitarra vigorosos e intervenções dos teclados esfuziantes a prover o uso de metais simulados.
O clip oficial da música: "Rock 2000". Produção de Alexandre Barreto (Mundo Urso Filmes)
Eis os link para assistir no YouTube:
Zé Brasil faz uma ode ao Rock, a evoca-lo desde os anos cinquenta e a citar diversas conquistas tecnológicas observadas ao longo das últimas décadas até os dias atuais com o avançar da década de vinte do novo século.
“Sonho de Amor” é uma balada com um certo sentido “bluesy”, a apresentar singeleza na sua harmonia, melodia e letra. Além de estar reforçada por certas sutilezas colocadas nos arranjos da guitarra e dos teclados, principalmente.
Certos trechos conduzidos sobre a divisão rítmica do staccato induzem à docilidade ingênua que remonta aos anos sessenta.
“Irmão Navegante” é mais uma canção fortemente inspirada no estilo do Rock Progressivo setentista e que traz um padrão de sofisticação instrumental e também uma bela interpretação vocal da parte de Silvia Helena de forma solo, em boa parte da canção. O solo de guitarra é muito belo.
O arranjo eloquente dos teclados, faz uma costura poderosa em meio à melodia durante o refrão.
A onomatopeia vocal no meio e ao final da canção é rica, a sugerir uma linha melódica avantgarde dentro do canto lírico, ao lembrar compositores não tão conhecidos do mundo erudito mais obscuro.
Em sua letra, o Zé Brasil buscou a conexão esotérica explícita ao fazer a conexão com as dimensões extra-físicas mais avançadas, certamente, como por exemplo ao afirmar:
“Vem amigo do céu, irmão navegante/vem junte-se a nós, na nave errante”/irmão navegante, irmão navegante, irmão navegante, Maitreya”...
E os sinos ouvidos ao final da canção não permitem que a conexão do ouvinte seja quebrada depois desse voo tão significativo para uma outra realidade etérea e de encontro a um Avatar do budismo.
Para este trabalho, o Zé Brasil arregimentou, além dos ótimos músicos que o acompanham regularmente, uma constelação de astros para abrilhantarem a obra, portanto, a junção das ótimas músicas compostas, com letras muito criativas, interpretação inspirada e acrescida da exuberância instrumental da parte de grandes músicos convidados, só poderia resultar em um álbum muito inspirador.
Na questão do áudio, o esmero para se obter timbres tão bons, fortemente inspirados em sonoridades típicas das décadas de sessenta e setenta, elevou ainda mais o trabalho, portanto, mediante ótimas canções dotadas desse padrão de qualidade sonora, culminou em tornar o CD “DoisMileVinteUm”, como uma peça indispensável, não apenas para os ouvintes mais acostumados à estética do Rock, mas a se tratar de uma obra pronta para ser degustada para qualquer ouvinte que aprecie a música feita com qualidade, inspiração e profundidade da parte de um artista que tem algo importante a dizer e precisa ser ouvido.
Ouça o álbum na íntegra, através da plataforma YouTube:
Gravado nos estúdios: Diginalogo, Audio Freaks, Greenhouse, Cakewalking, LeChat Áudio, Orra Meu e Mosh em 2020
Técnicos de captura: Marcos Azzella, Renato Coppoli, Gustavo Scremin, Edu Gomes, Cláudio Erlam, Gustavo Barcellos e André Miskalo (edição)
Técnicos de mixagem e masterização: Cláudio Erlam, Renato Coppoli e Zé Brasil
Arranjos: Zé Brasil, Cláudio Erlam (metais/faixa 9), Fernando Bustamante (orquestração) e Norba Zamboni (faixa 8)
Ilustração frontal de capa: Cipriano Souza
Lay-out e arte-final: Rafael Conny
Fotos de contracapa: Dean Claudio
Gravadora: Natural Records
Distribuição: Tratore
Direção geral e produção fonográfica: Zé Brasil
Músicos:
Zé Brasil: Voz, violão, sintetizador, percussão e bateria
Silvia Helena: Voz
Daniel Cardona (in memoriam): Violão e guitarra.
Dylan Webster (Glascow): Guitarra
Edu Gomes: Guitarra
Fabio Golfetti: Guitarra
Fares Junior: Guitarra
Gus Soularis: Guitarra
Marcello Schevano: Guitarra
Norba Zamboni: Guitarra, baixo e programação de bateria
Estamos de volta com mais uma coluna Artigos e Resenhas aqui no nosso site. Dessa vez o sensacional Luiz Domingues nos fala sobre o álbum Power Blues da banda Power Blues.
A matéria original pode ser encontrada neste link.
Sou músico e escrevo matérias para diversos Blogs. Aqui neste Blog particular, reúno minha produção geral e divulgo minhas atividades musicais. Como músico, iniciei minha carreira em 1976, tendo tocado em diversas bandas. Atualmente, estou atuando com Os Kurandeiros.
Sem mais, vamos ao texto do Luiz:
CD Power Blues / Power Blues - Por Luiz Domingues
Quando um grupo de músicos tarimbados anuncia que formou uma banda de Rock, a expectativa gerada previamente já garante uma simpatia pelo trabalho, mesmo antes do primeiro acorde que essa turma boa vai emitir através de seus instrumentos, pois é óbvio que desse novo grupo, somente coisas boas advirão.
Formada por Daniel Gerber (guitarra e voz), Paula Mota (voz e percussão), Daniel “Kid” Ribeiro (baixo e voz) e Franklin Paolillo (bateria e percussão), essa banda nasceu para brilhar e o seu debut fonográfico prova isso, plenamente.
O extrato da banda é o Rock clássico e o Blues como fontes primordiais. Dentro desse espectro, há uma mobilidade interessante entre a aposta natural em torno das escolhas pela sonoridade vintage e a modernidade. Pois ao avançar nessa predisposição, a banda acerta em cheio ao manter ao estética inteiramente inspirada no melhor do Rock pregresso, em termos estéticos e simultaneamente, deter um áudio moderno, com o melhor da tecnologia da atualidade.
Acrescento mais um dado que julgo ser oportuno: cerca de dois anos atrás, uma discussão repercutiu na mídia internacional quando um jornalista musical levantou uma questão interessante sobre o panorama do Rock naquela atualidade e que se pode afirmar, ainda vigora. Em sua tese, a desconexão com a raiz do Blues prejudicara o Rock, observada em tendências que avançam desde a década de oitenta. Não cabe aqui avançar sobre tal discussão, mas serve como adendo ao observar que o Power Blues propõe exatamente o contrário, isto é, ao mostrar o seu trabalho inteiramente baseado em um Blues-Rock vigoroso, convicto em seus ideais e orgulhoso de suas raízes.
Na prática, em seu álbum de estreia, o Power Blues mostra uma coleção de canções fortes, mediante a observação de melodias muito boas. Ao ir além, a construção primordial das composições é orientada por uma autêntica usina de riffs muito fortes e os arranjos mostram-se excelentes, ao privilegiar a construção de convenções intrincadas em alguns momentos e que enriquecem sobremaneira as músicas. E a parte cantada mostra-se forte, com Paula Mota, a brilhar mediante o uso da sua emissão vocal que é muito boa, naturalmente.
No quesito das letras, a aposta da banda é pela crônica do cotidiano, no entanto, há espaço para cravar opinião ante as mazelas observadas no meio social, no entanto sem esbarrar em panfletagem política, portanto, uma escolha acertada ao meu ver, no sentido em que todo artista tem que fazer valer a sua opinião forte (e convenhamos, da parte de quem enxerga na frente, há por tornar-se um farol), entretanto, nem todo artista percebe tal sutileza e sobretudo a responsabilidade que possui em ser um influenciador em potencial, ao abusar da sua condição para tomar partido acintosamente sobre uma posição “A ou B”, quando o ideal seria manter-se imparcial para enxergar o todo da questão. Pois não é o caso do Power Blues, que porta-se com inteligência nesse sentido.
Sobre a capa do álbum, a ideia é muito incisiva ao dar ênfase a uma imagem de um amplificador em "close-up". A explosão energética total é sugerida, pois tem tudo a ver com o poder do Blues, elevado em tal grau de eletricidade, portanto, eis aqui um exemplo perfeito a destacar-se em termos de sincronia entre a música e a imagem escolhida para ilustrar a capa de um álbum, principalmente ao levar-se em conta o fato de constituir-se a sua estreia fonográfica. Nesses termos, a imagem que passa é perfeita ao mostrar a artilharia pesada que municia o poder do Blues. Sobre as canções em si, cabe destacar:
“A Vida me Espera”
O Rock’n‘ Roll apresenta-se sem nenhuma parcimônia, com uma base fortemente influenciada pela influência setentista. Tem o vigor envolvente a mostrar força, no entanto, ao mesmo tempo é dançante ao extremo.
Destaca-se a voz aguda de Paula Mota, com timbre muito bonito, afinação e estilo de interpretação cativante. A letra contém bom humor, ao citar diversos fatores a respeito da condição da mulher na sociedade e a ironizar o machismo, por conseguinte. Linha de baixo e bateria espetacular e não apenas durante a exceção de um solo excelente, mas também a realçar a base, é preciso salientar que muitos contra-solos executados por Daniel Gerber, mostram-se criativos, ao interagir diretamente com o sentido da letra, principalmente no bom uso do recurso do wah-wah.
“Sexta-Feira”
Trata-se de um belo Blues-Rock, com a observação da linha harmônica tradicional do gênero, mas ao agregar elementos ricos em termos de convenções muito precisas. Impressiona o áudio a realçar os timbres verdadeiramente espetaculares de todos os instrumentos. Sobre a interpretação e execução da parte da banda, não há muito a acrescentar, visto que mostra-se perfeita.
“Liberdade Tem um Preço”
Nesta faixa a temperatura esquenta ainda mais. A transitar entre o Acid-Rock sessentista e o Hard-Rock Setentista, tal música mostra uma energia impressionante. Além disso, é notável a qualidade da melodia, o que ajuda a dar eloquência à proposta expressa em sua letra, a citar filosoficamente, mas em alto e bom som, um posicionamento firme em termos libertários. Paula canta com ênfase:
“Ninguém bate mais forte do que a vida... Liberdade tem um preço”...
Gostei muito da quebrada rítmica imposta pela bateria e o baixo, a inverter os tempos, ao estilo do Led Zeppelin em alguns trechos, e assim revelar criatividade e brilho. É impressionante o timbre do baixo, a mostrar o estalo bem proeminente ao final das notas, e assim a sugerir o som de John Entwistle.
Assista abaixo, o clip da canção: “Mentes Criminosas”
Carro chefe do álbum, pelo fato em ter motivado a produção do primeiro vídeoclip da banda, essa canção é sem dúvida a que apresenta uma roupagem mais moderna, no sentido do Hard-Rock. Mesmo a conter essa roupagem mais atual, em seu momento decisivo como ápice, ao destacar-se o seu riff primordial, eis que um fraseado bastante inspirado na surf music cinquenta/sessentista comanda a atenção. O baixo tocado por Daniel Kid, brilha mais uma vez ao estabelecer um solo estiloso, com farto uso de efeitos.
“Berço da Terra”
Eis que um momento para acalmar o ânimo, sobrevém e mediante alto estilo, eu devo observar. “Berço da Terra” traz em seu início a condução de uma balada doce, sustentada por um trabalho de guitarra muito bom e devidamente sedimentado pela presença do imponente órgão Hammond, sempre agradável em sua sonoridade tão característica.
No entanto, o ritmo acelera ao propor uma mudança na fórmula de compasso para o 2/4 e que sugere ao dobrar-se naturalmente, o 6/8. O solo de guitarra bem melódico, é muito bonito. A banda investe em uma bela inserção ao Prog-Rock, algo aparentemente surpreendente, visto não ser a proposta mais clara da banda e por isso mesmo, é muito agradável ouvi-la em tal viagem instrumental auspiciosa, aparentemente distante de sua zona de conforto bluesy.
“Nunca Diga Nunca”
Eis o tema mais balançado do disco, ao mostrar-se muito inspirado no estilo de muitas bandas maravilhosas que transitaram com desenvoltura entre os anos sessenta e setenta. A melodia é muito boa, com uma interpretação excelente da parte de Paula Mota, que remeteu-me à lembrança da grande e saudosa, Silvinha. Mediante uma linha de baixo e bateria, excelente, destaco igualmente a percussão que é sutil, mas contribuiu para garantir mais molho à composição.
“Louca de Pedra”
Outro tema bastante dançante, traz o Rock’n‘ Roll em perfeita comunhão como o melhor do R’n’B, ou seja, uma combinação explosiva que torna impossível ao ouvinte, ouvir sem sentir a vontade irresistível de dançar sem parar. É providencial a presença do piano ao trazer o elemento, “boggie woggie”. Paula Mota arrebenta ao lembrar bastante a voz de Maggie Bell e a banda soa como o Stone The Crown em seus melhores dias.
“Chega de Chorar”
Mostra-se muito boa a ideia dos acordes soltos feitas pela guitarra ao início, gostei muito. Rock vigoroso, tem em sua letra uma ode ao alto astral, por destacar o otimismo como melhor meio para que ninguém deixe-se contaminar pela choradeira observada em uma sociedade doente, onde as pessoas vivem tristes em seu cotidiano, talvez equivocadas em colocar todas as suas expectativas em torno de metas que foram impostas pela formação de opinião alheia, ou seja, valores que muito possivelmente nem fossem exatamente os seus por natureza, se não houvessem sido sugestionadas por isso. Gostei bastante do intermezzo desdobrado que realçou um belo solo melódico (mais uma vez), executado por Daniel Gerber.
“A Coisa Tá Dura”
O início com o baixo isolado, mais uma vez realça um belíssimo timbre extraído por Daniel “Kid“ Ribeiro. Tema acelerado, mostra um Rock mais reto e direto, a conter uma letra a expressar a insatisfação do cidadão comum em meio aos malfeitos perpetrados pelos poderosos & inescrupulosos.
Enfim, as canções são ótimas, a execução e interpretação da parte de seus instrumentistas e cantora, excelentes, os arranjos são muito bem feitos, o áudio é exemplar e nesse último quesito, certamente há o mérito em conjunto com o técnicos envolvidos nesta produção e neste caso, a qualidade do estúdio em si, do qual sou suspeito para elogiar, pois sou conhecedor de sua infraestrutura, construída com o rigor técnico em torno do padrão internacional da parte de seus proprietários, os irmãos Schevano, meus amigos de longa data.
Bem, merece uma menção muito honrosa, o senhor, Franklin Paolillo, que gravou este álbum e por força das circunstâncias, afastou-se momentaneamente da banda por uma questão de saúde, e tem sido substituído nos shows pelo grande, Roby Pontes, que também é um baterista dotado de uma técnica impressionante.
No caso de Franklin, a sua monstruosidade como baterista é pública e notória, a dispensar uma maior explicação. A sua atuação neste álbum é espetacular, na exata medida em que espera-se da atuação de um gênio como ele o é, portanto, expresso aqui os meus mais sinceros votos para que a sua convalescença seja a mais breve possível e que em muito breve ele possa retomar o seu posto na banda.
Gravado no Estúdio Orra Meu em São Paulo
Técnicos de Som (captura): Gustavo Barcellos e André Miskalo
Técnicos de mixagem e masterização: Gustavo Barcellos e Daniel Gerber
Capa (criação e lay-out): Rogério Sodré, Daniel Gerber e Luis “Caverna” Correa
Produção André Miskalo, Daniel Gerber e Daniel “Kid” Ribeiro
A formação do Power Blues no álbum:
Daniel Gerber: Guitarra e Voz
Paula Mota: Voz e Percussão
Daniel “Kid” Ribeiro: Baixo e Voz
Franklin Paolillo: Bateria e Voz
Músico Convidado:
Marcello Schevano: Teclados
Para conhecer melhor o trabalho do Power Blues, acesse:
Estamos de volta com mais uma coluna sobre acordes no contrabaixo.
Estas colunas saíram originalmente pela antiga revista Bass Player Brasil e fazem parte do material de apoio utilizado em minhas aulas de contrabaixo presencial e a distância.
Para maiores informações sobre as aulas, entre em contato pelo e-mail femtavares@gmail.com
ACORDES (PARTE 2) – Tríades – Modelos alternativos para acordes com três vozes
Dando sequência a primeira coluna que fizemos sobre acordes, apresentaremos nesta coluna modelo alternativos para o desenho básico.
No modelo 2, temos a ideia de oitavar a terça, formando um acorde com salto de corda, esta ideia é interessante, pois nos dá uma opção de som mais “aberto” (figura 1).
Agora no terceiro modelo vamos omitir notas. A primeira nota que podemos omitir é a quinta justa, obviamente nos acordes diminutos e aumentados não aconselhamos a omissão da quinta, pois os acordes perderiam o som característico deles, percebam que não passei esta ideia de omissão para estes acordes. Temos os modelos 1 e 2 pensando na omissão da quinta e substituição dela pela oitava (figura 2).
É isso aí pessoal! Na próxima coluna passarei alguns padrões de dedilhado para estudarmos estes modelos de acorde.
Estamos de volta com mais uma coluna Artigos e Resenhas aqui no nosso site. Dessa vez o sensacional Luiz Domingues nos fala sobre o álbum Preces e Tentações/Pepe Bueno & Os Estranhos.
A matéria original pode ser encontrada neste link.
Sou músico e escrevo matérias para diversos Blogs. Aqui neste Blog particular, reúno minha produção geral e divulgo minhas atividades musicais. Como músico, iniciei minha carreira em 1976, tendo tocado em diversas bandas. Atualmente, estou atuando com Os Kurandeiros.
Sem mais, vamos ao texto do Luiz:
CD Preces e Tentações/Pepe Bueno & Os Estranhos - Por Luiz Domingues
Artista inquieto por natureza, o baixista, cantor e compositor, Pepe Bueno sempre portou-se sob extremo entusiasmo na sua relação ao Rock, desde o tempo em que esteve à frente do Tomada, uma banda que escreveu belas páginas na história do Rock brasileiro, a partir do final dos anos noventa.
Com o Tomada a trabalhar com força total, Pepe achou uma brecha para lançar um álbum solo em 2008, denominado: “Nariz de Porco Não Tem Tomada”, um dito popular a provocar uma brincadeira com a sua própria banda. Alguns anos depois, eis que Pepe retornou a movimentar a sua carreira solo, quando lançou o CD “Eu, o Estranho”, o seu segundo álbum solo, em 2016.
Desta feita, porém, a despeito da atividade do Tomada continuar com força na ocasião, o segundo disco solo trouxe uma nova possibilidade para Pepe, além de um uma simples vazão para a sua energia criativa extra-banda, ao ser exercida a contento. Isso por que tal álbum inspirou o avanço de uma carreira solo com maior ênfase e para tal, o artista batizou doravante tal trabalho como: “Pepe Bueno & Os Estranhos”.
Para ler pela primeira vez ou reler a resenha que elaborei sobre o álbum anterior: “Eu, o Estranho”, eis o Link disponível em meu Blog 1:
Nesse ínterim, Pepe Bueno lançou diversos vídeoclips, pois entre outros atributos pessoais, ele é também um experiente editor de peças audiovisuais.
Recentemente, 2019, eis que Pepe anunciou o lançamento de mais um álbum, sob a chancela, “Pepe Bueno & Os Estranhos”, e denominado: “Preces & Tentações”. Cercado por um batalhão de músicos geniais, não haveria possibilidade desse novo trabalho não atender a expectativa natural da parte de qualquer ouvinte que esteja a acompanhar a carreira solo de Pepe Bueno, à frente de seus talentosos e “estranhos” (no ótimo sentido), companheiros de jornada, ou mesmo dos trabalhos do Tomada e para ir além, ao citar esses artistas que dão-lhe o devido suporte, ao pensar-se em cada um, individualmente, em face de seus trabalhos a bordo de bandas significativas e em alguns casos, algumas a revelar-se históricas.
Posto isso, cabe dizer que sim, “Preces & Tentações”, atende prontamente as expectativas geradas em torno de uma coleção de boas canções pautadas pelas melhores referências do passado nobre do Rock, a observar não apenas o aspecto em torno da estética escolhida para assim poder expressar-se, mas também através da fidedignidade da formatação musical em relação aos arranjos individuais da parte dos instrumentistas e cantores envolvidos no bojo da obra.
E ao ir além, sobre a questão da temática das letras, realça-se a preocupação de Pepe e de seus Estranhos, no sentido em buscar os melhores timbres, o melhor áudio e nesse particular, arrole-se entre os “estranhos”, também a participação especial dos técnicos de gravação, mixagem e masterização do trabalho, envolvidos, indelevelmente comprometidos com as mesmas ideias artísticas.
O mesmo pode-se afirmar sobre o aparato gráfico do trabalho ao mencionar o trabalho de ilustração/lay-out da capa do álbum.
Bastante provocativa, a imagem de uma freira estilizada com detalhes que sugerem traços fisionômicos reptilianos, avança sobre o conceito do realismo fantástico em uma primeira instância, no entanto, logicamente abre a possibilidade para diversas interpretações análogas.
Desenho criativo, sem dúvida, também faz jus à questão da estranheza em si, ou seja, a tratar-se de um conceito que inspirara o título do álbum anterior de Pepe (“Eu, o Estranho”), e por ter ficado tão forte no imaginário proposto pelo artista, eis que batizou a sua banda de apoio, posteriormente.
Criação e lay-out de Sandro Saraiva, certamente que é um cartão de visita sob o ponto de vista visual, a revelar-se atrativo para o álbum.
Sobre as canções, é preciso acrescentar mais algumas observações pertinentes. Enquanto o leitor continua a acompanhar a resenha, convido-o a escutar o álbum, na íntegra, através do link abaixo, no YouTube:
“Respira”
Tratada como uma vinheta, essa faixa com pequena duração é marcada fortemente pelo experimentalismo explícito. Mediante uma linha mestra proporcionada pelo baixo, no sentido de um "looping", dá-se a margem ideal para que os outros instrumentos participantes aventurem-se em voos, caso dos teclados e das guitarras em sobreposição e devidamente sustentadas por uma linha de bateria a buscar um certeiro sentido tribal.
Lembra de certa forma, o Space-Rock da transição dos anos 1960, para a década de 1970, além do Krautrock germânico mais radical da década de setenta. Vozes a balbuciar palavras aparentemente desconexas, ajudam a manter o clima em tom da estranheza generalizada e certamente a mostrar-se como uma introdução perfeita para uma banda que observa a estranheza como o seu mote. Entretanto, isso é uma pista falsa se o ouvinte está a conhecer esse trabalho pela primeira vez, pois a seguir, o trabalho expressa na continuidade do álbum, a característica mais Pop da música convencional e com muitos méritos.
“Calma”
Trata-se de uma bela balada, com uma melodia agradabilíssima, e cuja vocalização principal foi defendida por um grande parceiro de Pepe, na figura do cantor, guitarrista & compositor, Fernando Ceah. Não consta na ficha técnica uma especificação formal e elucidativa, mas ao levar em conta que Ceah é um grande letrista, é possível que tal letra tenha sido a sua contribuição à canção, visto que ele é coautor da música junto à Pepe e também a contar com o baterista superb, Junior Muelas.
O backing vocals com a palavra: “calma”, a intercalar e a comandar o refrão central, é muito bom. Tem tudo a ver com a menção feita na faixa anterior, que chama-se: “respira”, ou seja, respirar e acalmar-se talvez seja a única solução para enfrentarmos a loucura diária, imposta-nos em torno das agruras da sociedade pautada pelo mega consumo, e assim criada para justificar a preocupação em ter que honrar os boletos que mandam-nos diariamente em nossas respectivas residências. Em suma, só resta mesmo ao cidadão comum, buscar acalmar-se para que não sucumba ao colapso nervoso total.
Na parte musical, é adorável o uso de bases com farto uso da caixa Leslie. Contra-solos inspirados de guitarra, pincelam a canção a colori-la muito bem.
A levada da cozinha é flutuante. O cowbell inserido como detalhe percussivo, segue essa ideia da simplicidade, mas é na singeleza que tais sutilezas realçam-se com muita felicidade. Uma parte inspirada no Hard-Rock é muito bonita, com peso, mas não mostra-se desmesurado, ao manter-se melódico, portanto. O apoio do órgão Hammond também é discreto, mas muito eficaz.
“E com fé eu vou... das seis às seis eu tenho meta a cumprir... calma... calma... calma”
“Esconderijo”
Eis aqui um canção a conter um sentido R’n’B, bem forte, por investir em uma ótima melodia. Lembrou-me bastante o trabalho do grupo britânico, "Faces", no início dos anos setenta, mas claro, essa colocação é uma mera impressão pessoal de minha parte, e portanto não significa que Pepe Bueno & Os Estranhos tiveram tal inspiração exatamente como eu intuí. Sob um instrumental excelente, dá-se a margem para que Pepe a cante com desenvoltura e coloque à disposição do ouvinte, o seu bom baixo, com tranquilidade, igualmente.
“Vida”
É interessante o seu início, a mostrar-se bluesy, com o piano e o baixo a mantê-la amena, sob uma batida marcada pelos tambores, predominantemente, na bateria.
O solo de guitarra é muito melódico e ao mesmo tempo encorpado pelo excelente trabalho de áudio a garantir-lhe um timbre memorável. Excelente também se mostra a participação dos teclados, inclusive a apresentar a inserção do mellotron, um tipo de timbre ultra identificado com as décadas de 1960 & 1970, e que sempre enriquece sobremaneira qualquer trabalho com tal intenção em demarcar as influências do melhor do Rock.
“Último Dia de Verão“
Eis aqui, ótimo trabalho com violões, mesclados com as guitarras. Evoca-se a riqueza musical do Southern Rock, sem dúvida. Mediante o uso dos teclados com muita propriedade, a conter uma ótima linha de baixo e sob uma melodia muito boa, eis aqui, uma canção muito boa em todos os quesitos.
“Cá, Entre Nós”
Uma balada Bluesy, lenta e introspectiva, e que contém novamente um aparato instrumental de primeira linha. Teclados, guitarras, violão, baixo e bateria em perfeita sintonia, ofertam em sintonia, uma amálgama perfeita para a melodia vocalizada fluir e narrar uma história de amor, para citar logradouros paulistanos, ou seja, a conter uma urbanidade perfeita.
“Não Muda Mais” (Você é uma Maluca)
Conduzida pela voz rasgada do cantor & guitarrista, Xande Saraiva, trata-se de um Blues-Rock vigoroso, com ótima instrumentação. Tem muito a ver com os primórdios da carreira do Tomada, portanto, é uma raiz natural de Pepe Bueno, a mostrar-se sempre presente em sua obra, que bom.
Uma novidade interessante, no release do álbum, é mencionada a existência de três faixas adicionais, que serão disponibilizadas a posteriori, quando o álbum for lançado em formato físico, em CD tradicional. Tratam-se de: “Tempo, Um Mundo Diferente”, “África” e a releitura de uma canção de Guilherme Arantes, “Estranho”. Este álbum foi produzido em vários estúdios, daí a existência de vários endereços na ficha técnica.
Eis então um novo álbum de Pepe Bueno & Os Estranhos, a mostrar uma continuidade sólida em relação ao trabalho anterior, e que eu recomendo, certamente.
Gravado nos estúdios: Orra Meu, Carlini’s Studio, Casa 88 e Curumim, de São Paulo-SP e também no estúdio Área 13 de São José do Rio Preto-SP
Técnicos de gravação (captura): Marcello Schevano, Gustavo Barcellos, Rafael Magno, Gabriel Martini, Roy Carlini, Fernando Ceah, Claudio “Moko” Costa e Alberto Sabella
Mixagem: Pepe Bueno e Gabriel Martini
Masterização: Renato Copolli
Capa (Arte-final e Lay-Out): Sandro Saraiva
Fotos: Cristina Piratininga Jatobá e Marcelo Creelece
Produção Geral: Pepe Bueno
Selo: Curumim
Pepe Bueno & Os Estranhos:
Pepe Bueno: Baixo, Voz, Guitarra, Violão e Lap Steel
Pi Malandrino: Guitarra
Alberto Sabella: Teclados e Trutuka (um instrumento de sopro)
Junior Muelas: Bateria e Percussão
Xande Saraiva: Guitarra e Voz
Roy Carlini: Guitarra
Rodrigo Hid: Teclados
Caio Lobo: Voz
Marcello Schevano: Guitarra
Gabriel Martini: Bateria
Claudio “Moko” Costa: Guitarra
Chico Marques: Voz
Fernando Ceah: Voz
Para conhecer melhor o trabalho de Pepe Bueno & Os Estranhos, acesse:
Multi Link para escutar o álbum em diversas plataformas digitais :
Estamos de volta com mais uma coluna Artigos e Resenhas aqui no nosso site. Dessa vez o sensacional Luiz Domingues nos fala sobre o álbum solo do guitarrista Bruno Moscatiello, conceitual, bem no estilo do Rock Progressivo e com embalagem luxuosa: "Rio de Lágrimas".
A matéria original pode ser encontrada neste link.
Sou músico e escrevo matérias para diversos Blogs. Aqui neste Blog particular, reúno minha produção geral e divulgo minhas atividades musicais. Como músico, iniciei minha carreira em 1976, tendo tocado em diversas bandas. Atualmente, estou atuando com Os Kurandeiros.
Sem mais, vamos ao texto do Luiz:
CD Brazilian Progressive Rock Soundtrack Volume 1 - Rio de Lágrimas / Bruno Moscatiello - Por Luiz Domingues
Eis aqui um exemplo impressionante de uma obra que se fosse apreciada de uma maneira isolada, já seria por si só, excepcional, no entanto, este trabalho faz parte de um conglomerado portentoso, e não apenas expresso pelo seu aspecto musical, ou seja, dessa forma mostra uma substância cultural multifacetada e muito rica.
Para explicar do que trata-se exatamente esse álbum, é preciso destacar que toda a inspiração musical nele advinda, vem de encontro com o pensamento filosófico de Renato Shimmi, um pesquisador muito sério no meio acadêmico, daí a sua sólida proposta em termos de mote. Não obstante tal estrutura intelectual fortíssima, há também o aparato ilustrativo, assinado por dois desenhistas incríveis, mestres na arte dos quadrinhos, Zé Otávio e Glaucus Noia.
Na parte musical, uma parte é preenchida pelo trabalho do excepcional guitarrista, Bruno Moscatiello, cercado por músicos convidados (todos do mais alto calibre, entre eles, alguns históricos dentro da cena do Rock Brasileiro), e a sua conclusão dá-se com a intervenção do grupo Kaoll, um grande nome do cenário moderno do Rock Progressivo, e grupo esse em que Bruno Moscatiello, também é integrante.
Cabe explicar também, que das onze faixas que constam neste álbum coletânea, seis são oriundas do álbum : “Sob os Olhos de Eva”, do grupo Kaoll, daí a ideia do elo que complementa o conceito em torno da obra como um todo.
Como o CD do Kaoll já foi devidamente resenhado em meu Blog, deixo abaixo o link para que o leitor tome conhecimento do que foi analisado dessa obra em separado do contexto maior, e assim, posteriormente eu avanço para repercutir a parte inicial da coletânea, com a obra: “Rio das Lágrimas”, assinada por Bruno Moscatiello e a contar com a presença de diversos convidados, muito especiais.
Eis o Link para acessar a resenha sobre o CD: “Sob Os Olhos de Eva”, do Kaoll:
Sobre as canções que compõem a parte da obra denominada, “Rio das Lágrimas”, trata-se de um conjunto formado por cinco temas instrumentais, a observar uma excelência musical inquestionável e nesse caso, não é uma surpresa, por motivos óbvios, ao considerar-se os músicos aqui reunidos para cumprir tal missão.
O elo com a obra posterior, assumida pelo grupo Kaoll, é total em termos de linearidade musical, embora haja uma sutil linha divisória a delinear cada trabalho. E isso ocorre não apenas por uma questão de coerência, se analisada pelo aspecto musical tão somente, mas certamente a seguir o libreto proposto pelo ensaio filosófico escrito por Renato Shimmi e devidamente embasado, visualmente, neste caso em específico, pela arte em quadrinhos assinada por Glaucus Noia.
A história trata da representação simbólica em torno de uma fábula muito bem embasada, a repercutir sutilmente um assunto vital, mas que não é necessariamente absorvido pela grande massa dentro da sociedade. Ou seja, a questão estrutural em torno da geopolítica que dita as normas no mundo, a usar de força desmedida, geralmente, para atingir os seus objetivos. Nesses termos, o belíssimo livro a apresentar o acompanhamento dessa fábula em quadrinhos, reforça e muito a força do texto.
Portanto, ao lançar a ideia em contar com a palavra, o som e a ilustração, em união para provocar deliberadamente a percepção sensorial do público, mostra-se perfeita, como estratégia. Dessa maneira, quando a própria editora usa como slogan publicitário, a frase de efeito a subverter a ordem natural dos sentidos: “ouvir o texto, ver a música e ler as ilustrações”, creio que revela-se muito feliz em exprimir a proposta deste projeto.
Ouça abaixo, um resumo sobre as faixas da parte "Rio de Lágrimas":
https://www.youtube.com/watch?v=WpT7qmS5Nu4
Sobre a parte musical de “Rio das Lágrimas”, cabe uma reflexão sobre as faixas:
“O Acordo”
Mostra-se impressionante o som do órgão de igreja, algo que há tempos eu não escutava em trabalhos modernos dentro do Rock brasileiro, nem mesmo em termos progressivos. Tal grandiloquência a evocar o conceito sinfônico, ornou muito bem, portanto. Assim como o uso de instrumentos de percussão, geralmente usados na música erudita e que foram bem utilizados por bandas clássicas do Rock Progressivo setentista, como os tímpanos e o tubullar bells. Em alguns momentos, a música assumiu um caráter cinematográfico, eu diria, pois abriu um campo auditivo capaz de propor imagens e assim reforçar certamente o conceito expresso pela obra em ser uma mistura sensorial entre as palavras, ilustrações e notas musicais.
“Batalha dos Minotauros”
A ideia de trazer um tipo de fraseado que lembrou um pouco as tradições da música Folk mexicana, pareceu-me interessante, mesmo que não haja na ficha técnica, anotada a participação de algum trompetista para tal execução, o que seria o usual em tal tipo de citação. O solo lento da guitarra, na perfeita exploração de notas longas, ficou muito bonito. Gostei muito da linha rítmica estabelecida pelo baixo e bateria.
“Rio de Lágrimas”
Mais uma intervenção de uma guitarra a explorar as notas longas, ou como costumamos chamar, no jargão musical, como “solo chorado”. Achei muito bonita a linha do baixo e a percussão muito criativa. A observação de diversas pontes entre as partes, dignificou as tradições do Rock Progressivo e enriqueceu o arranjo, obviamente. A presença de um belo solo de violão, dividido com outro ao sintetizador, mostra mais do que a destreza da parte dos instrumentistas, mas também revela uma beleza ímpar. Há também inserções em torno da polimelodia, e mais dois solos muitos bons ao final do tema, desta feita da parte de uma guitarra e igualmente do sintetizador.
“Morte do Sonho”
Gostei bastante da base harmônica estabelecida pelos teclados, com um teor lúgubre, tenso, no entanto, pleno em beleza. A presença de um belo solo lento à guitarra e também de um arranjo a privilegiar o violão, que engrandeceu a música.
“O Último Ato”
Mais uma vez é destacada a digitação ao violão. Gostei muito (mais uma vez) da linha de baixo e bateria e do peso estabelecido pelos teclados. Uma rápida passagem pelo piano, ficou muito bonita a destacar um belo timbre.
Em uma outra determinada parte, a música adquiriu um caráter sinfônico, a mesclar-se com um violão muito balançado, a propor uma parte dançante, até, por incrível que pareça. Há mais um belo solo de guitarra a acontecer, com a bateria e o baixo e pontuar uma linha com muito “groove”. E encerra-se com uma boa convenção, toda tercinada em sua divisão rítmica.
Sobre a capa do CD coletânea, “Brazilian Progressive Rock Soundtrack Volume 1”, há uma mixagem das imagens do livro de história em quadrinhos que acompanha o disco, com as imagens propostas no CD “Sob os Olhos de Eva”, do Kaoll, que também faz parte do pacote completo.
No caso da parte assinada por Bruno Moscatiello e de seus convidados, denominada como: “Rio das Lágrimas”, o trabalho do desenhista, Glaucus Noia é magnífico. A arte final foi creditada ao coletivo cultural, Sopa Art Br.
Uma boa ficha técnica é disponibilizada através de um caprichado encarte, com o texto em inglês, naturalmente idealizado como uma estratégia a buscar-se o reconhecimento internacional desta obra.
Para encerrar, recapitulo ao leitor que este CD é conceitual em torno do ensaio filosófico concebido pelo filósofo, Renato Shimmi.
A parte inicial da obra musical, em torno das cinco primeiras faixas, chamada como: “Rio de Lágrimas”, é um esforço criativo do guitarrista, Bruno Moscatiello, na companhia de muitos músicos convidados. Da sexta à décima primeira faixa, assume a batuta do disco, o grupo “Kaoll”, a expressar a obra: “Sob os Olhos de Eva”.
No cômputo geral, em termos de texto, trata-se na verdade de um único conceito, dividido em duas partes e escrito por Shimmi.
Na parte gráfica, o primeiro livro apresenta ilustrações de Zé Otávio e no segundo, são da autoria de Glaucus Noia. É notória a diferença de estilos entre tais artistas e ambos são excepcionais. Aliás, digno de nota, o luxo do acabamento gráfico, impressiona.
Está de parabéns a editora Red Clown, em conjunto com o coletivo Sopa Art Br e da gravadora Masque, pois no cômputo geral, todos os produtos são apresentados com um alto teor de qualidade, mediante a observação de um material de primeira categoria, com nível internacional.
E sobre a proposta filosófica expressa pelo pensador, Renato Shimmi, esta fábula mostra-se muito rica. Se o leitor & ouvinte prestar atenção, ele haverá por identificar muito claramente o que é dominação mediante a estratégia do domínio dos recursos energéticos vitais. Em termos físicos, seria a tática do estrangulamento, que impossibilita a reação e por conseguinte, estabelece quem domina e quem será sempre dominado. Portanto, transposto diretamente à realidade que norteia-nos, exprime o que está em jogo na acirrada disputa geopolítica exercida em nosso mundo.
Foi gravado no estúdio, Brainless Brothers Studio, em São Paulo.
Masterização no estúdio Sabatt Studio
Técnico de som (captura e mixagem): Fabio Ribeiro
Masterização: Saulo Battesini
Texto: Renato Shimmi
Ilustrações: Glaucus Noia
Arte Final: Sopa Art
Livro HQ editado pela Red Clown
Gravadora Masque Records
Músicos:
Bruno Moscatiello: Guitarra; violão e teclados
Kleber Vogel: Violino
Saulo Battesini: Teclados
Claudio Dantas: Percussão
Eduardo Aguilar: Baixo
Edu Varallo: Percussão
Nana Mathias: Violino
Erico Jones: Baixo
Fred Barley: Bateria
Fabio Ribeiro: Teclados
Willy Verdaguer : Baixo
Tainan Cristina: Cello
Para saber mais sobre o livro HQ/comics que acompanha este CD (assim como o livro que acompanha a parte da obra creditada ao Kaoll, “Sob os Olhos de Eva - Revoluções”, com mais ênfase ao texto do pensador, Renato Shimmi, e a conter ilustrações de Zé Otávio), acesse o site da editora Rede Clown:
Estamos de volta com mais uma coluna Artigos e Resenhas aqui no nosso site. Dessa vez o sensacional Luiz Domingues nos fala sobre o CD Springtime do grupo de Rock Progressivo, Wejah.
A matéria original pode ser encontrada neste link.
Sou músico e escrevo matérias para diversos Blogs. Aqui neste Blog particular, reúno minha produção geral e divulgo minhas atividades musicais. Como músico, iniciei minha carreira em 1976, tendo tocado em diversas bandas. Atualmente, estou atuando com Os Kurandeiros.
Sem mais, vamos ao texto do Luiz:
CD Springtime / Wejah - Por Luiz Domingues
O Wejah é um grupo que foi formado nos idos de 1982, fortemente inspirado pelo Rock Progressivo setentista, sob várias vertentes e a acrescentar doses generosas dos gêneros: Jazz-Rock, Fusion e música instrumental em geral.
A década de oitenta, como é bem sabido, não foi nada favorável para uma manifestação artística versada por tais estéticas e pelo contrário, revelou-se hostil para os artistas, que mesmo veladamente insinuassem em seus trabalhos, tais nobres influências de um passado considerado apócrifo pelos detratores em voga, portanto, a culminar em uma dificuldade tremenda para projetar-se adequadamente.
Dessa forma, a extrema contrariedade com a qual artistas dessas vertentes obtiveram para expressar-se, ganha ao olhar moderno, uma avaliação positiva ainda maior, pois a despeito da sua arte pautada pela excelência musical, o simples fato em ter tido tantas dificuldades para poder trabalhar, faz com que só possamos ter ainda mais admiração pela sua obstinação ante os obstáculos impostos.
Nesses termos, o Wejah foi valente e resistiu até demais, ao construir uma carreira que durou até o início dos anos noventa. Houve uma tentativa de retomada das atividades ao final dessa década, mas não bem sucedida, infelizmente, e somente em meados dos anos 2000, a banda reuniu forças para voltar à cena, com maior desenvoltura e desde então vem a trabalhar fortemente dentro das suas convicções artísticas e estéticas.
Eis que o seu último lançamento foi então através do CD denominado, “Springtime”, gravado em 2006 e lançado no início de 2007. E nada poderia ter sido melhor do que apontar para a perspectiva de uma florida e alvissareira primavera, após um longo inverno, não resta dúvida.
Tal trabalho apresenta canções absolutamente inéditas, gravadas entre 2003 e 2006, e a contar com três diferentes formações da banda (incluso a primeira, original dos anos oitenta), sempre conduzida pelos obstinados irmãos Sanchez: Nelson e Jorge. Foi lançado como CD tradicional em 2007 e recentemente, início de 2019, o trabalho foi incorporado em diversas plataformas digitais.
Ao escutar tal obra, chama a atenção que o lado mais Fusion da influência desses artistas, não deixa que exista um peso excessivo na sua criação e isso tem o lado bom, na medida em que muitos grupos Neo-Progressivos (principalmente após os anos noventa), buscam inspiração em artistas que mesclam o velho e bom Rock Progressivo setentista, com tendências pesadas, oriundas de vertentes do Heavy-Metal e particularmente, isso desagrada-me.
Claro, trata-se de uma mera opinião pessoal, mas eu considero que mesmo ao analisar grupos setentistas que trabalharam com peso em suas respectivas obras e são muitos os bons exemplos nesse campo, com o King Crimson como uma referência forte, só para citar uma, eu penso que grupos mais modernos que resgataram o Rock Progressivo nos anos noventa e dois mil, mas ao acrescentar correntes oriundas do Heavy-Metal, não fizeram a leitura correta do que realmente representou o Prog-Rock setentista em sua essência e nesse sentido, ao fundir com o Metal, inventaram uma receita indigesta.
Bem, não é o caso do Wejah, e como já observei, essa influência do Fusion que os seus componentes observam, tratou por não haver a menor possibilidade de existir um peso inconveniente em seu trabalho, mediante a observação de timbres e maneirismos que simplesmente não combinam adequadamente com o conceito do Prog-Rock clássico.
E mais um detalhe, o Wejah trabalha com uma vertente mais amena do Prog-Rock em si, onde busca-se uma maior aproximação com o som mais sinfônico, em paralelo ao Soft-Rock de uma maneira geral ou a trocar em miúdos, há o lado mais a pender para o som de Vangelis, principalmente naquela fase em que este grande tecladista grego construiu um projeto com o vocalista do Yes, Jon Anderson, para situar melhor o leitor.
O Wejah em foto ao vivo, sob formação como Power Trio, por ocasião do lançamento do CD Springtime. Teatro Santos Dumont, em São Caetano do Sul-SP, no ano de 2007
Sobre a atuação individual dos componentes no álbum, é realizada sob alto nível técnico, com muito bom gosto nas performances individuais e no tocante ao arranjo coletivo, que é bem amparado por uma ótima produção de áudio, e a incluir-se nesse bojo, o bom uso de timbres, a sobressair a opção sempre agradabilíssima em torno da escolha pelo padrão vintage. Em suma, a reforçar a ideia de que seja uma experiência prazerosa escutar tal álbum.
Não se trata de um trabalho exclusivamente instrumental, embora as canções mostrem-se quase que inteiramente construídas nesses termos. No entanto, observa-se pequenos trechos cantados em algumas faixas e embora a atenção despendida à vocalização seja menor, quando a cantoria aparece, tem uma qualidade muito grande, tanto na composição das melodias propostas, quanto na interpretação. E a opção é pelo uso do idioma inglês, e por conta desse detalhe, certamente tratou-se de uma estratégia da banda para adequar-se ao mercado internacional.
Sobre a capa do disco, a imagem usada foi a de uma paisagem cósmica, penso que uma foto obtida por um telescópio ou satélite. Sóbria, bonita e ao mesmo tempo profunda, por mostrar a amplitude do Universo e o logotipo da banda, que é muito funcional e ao mesmo tempo bem estiloso, compõe bem a imagem frontal dessa arte gráfica. Concepção e arte final do guitarrista, Nelson Sanchez. Enquanto o leitor prossegue nesta leitura, convido-o a escutar o álbum, “Springtime”, na íntegra:
Sobre as canções em si, resta-me observar mais alguns detalhes.
O Wejah ao vivo, como quarteto, desta feita, durante o Festival de Inverno de Paranapiacaba, em Santo André-SP, no ano de 2008
“Beginning of Life”
Com uma introdução bem climática, a destacar-se os teclados e a presença de sussurros fantasmagóricos, este tema desenvolve-se posteriormente em torno de uma bela levada de bateria e baixo, ao dar vazão para uma sucessão de acordes bem desenhados pela guitarra. Após uma desdobrada rítmica estratégica, acontece a parte cantada. Ao final, a bateria avança sob uma sutil intenção tribal e encerra-se o tema, mediante uma boa base obtida através do sintetizador e um bom solo de guitarra, mediante o seu timbre limpo.
“First Spring Flower”
Revela-se muita boa a condução rítmica inicial, gostei muito. Depois disso, uma base intermitente do sintetizador mostrou-se muito criativa. Apreciei bastante os ricos desenhos executados pela guitarra, tudo muito bem encaixado e a seguir, um solo de piano, muito bonito. O vocal entra e depois abre caminho para um solo de guitarra. O uso do recurso amparado por onomatopeia melódica, a la George Benson, é bem interessante.
"Insanity"
Logo no começo, uma insinuação de solo de baixo, chama a atenção. O tema fica mais pesado a mostrar densidade, e assim, impressiona o arranjo a privilegiar a inclusão de uma camada de teclados, muito bem concatenada. O uso da fórmula de compasso 6/8, traz a sutileza da influência jazzística e abre espaço para um solo de piano. Sussurros são escutados ao final, para garantir uma atmosfera misteriosa e o som do piano encerra a canção com uma intervenção deveras criativa.
"Burned Out"
Canção balançada, praticamente a caracterizá-la como um R’n‘B, apresenta um bom solo ao sintetizador e posteriormente, ocorre um outro momento solo e ótimo, desta feita executado ao piano elétrico. Gostei da parte toda arpejada pela guitarra, do solo posterior e da segunda voz em contraponto, ao final da música.
"North South East West"
Com boa base harmônica ao sintetizador, e também o solo ameno de guitarra, começa bem esta faixa. Apreciei a base desdobrada para dar vazão a um solo climático. A voz bem processada com uma reverberação mais profunda, também mostrou-se criativa e a linha de bateria ficou excelente.
"The Path"
Este tema, mostra-se bem denso, lembrou-me a canção, “Squonk” do Genesis, pela intenção. Apreciei bastante a sua sonoridade.
"Bragdah"
Talvez a música mais explicitamente influenciada pelo Jazz-Rock setentista clássico, mostra uma quebradeira rítmica memorável da parte pelos instrumentistas da banda. Gostei das convenções mais complexas, executadas com extrema habilidade.
"Box of Surprises"
Mais um tema a demonstrar destreza técnica de todos os componentes desta banda, também chamou-me a atenção um solo de baixo e a parte quebrada, onde a voz foi muito bem delineada. Gostei igualmente do solo final e dos efeitos propostos pelos teclados, a garantir uma sensação de loucura, no melhor sentido dessa expressão.
Recomendo a audição deste álbum, assim como a discografia geral do Wejah (álbuns: "Renascença", de 1988, e "Sendas", de 1996), por tratar-se de uma banda com influências nobres em sua formação artística, a contar com ótimos instrumentistas e inspirados compositores.
Gravado no estúdio próprio da banda em São Caetano do Sul-SP, e no Pro Studio, além do apoio de outros estúdios não arrolados, entre 2003 e 2006
Técnico de som (captura), mixagem e masterização: Cassio Martin
Capa (criação e lay-out): Nelson Sanchez
Produção Geral: Wejah
Formação do Wejah na faixa, "Insanity"
Nelson Sanchez: Guitarras
Jorge Sanchez: Voz e Baixo
Marcelo Perez: Teclados
Braulio Veiga: Bateria
Formação do Wejah nas faixas: “Beginning of Life”, “First Spring Flower”, “Bragdah” e “Box of Surprises”:
Nelson Sanchez: Guitarras
Jorge Sanchez: Baixo e Voz
Wladimir Augusto: Bateria
Formação do Wejah nas faixas: "Burned Out", "The Path" e "North South East and West"
Nelson Sanchez: Guitarras
Jorge Sanchez: Baixo e Voz
Marcelo Perez: Teclados
Luiz Fernando: “Piriquito”
Produção independente
O Wejah sente a aspereza do mercado, que sempre foi muito duro para o Rock Progressivo e neste momento de 2019, diante do quadro atual, ainda mais e apenas planeja compor novas músicas, mas sem perspectiva para lançamento ou mesmo shows ao vivo, por enquanto. No entanto, sinceramente, espero que oportunidades surjam para que esses artistas voltem a apresentar-se com maior regularidade e lançar novos trabalhos. Trata-se de um trabalho feito sob alto padrão técnico, a esbanjar criatividade e nobres propósitos.