terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Artigos & Resenhas - EP Carcere / Gandharva - Por Luiz Domingues


Olá pessoal!

Estamos de volta com mais uma coluna Artigos e Resenhas aqui no nosso site. Mais uma vez temos uma matéria do sensacional Luiz Domingues, na qual ele nos fala um pouco sobre o EP Carcere da banda Gandharva, vale a pena conhecer os trabalhos destas bandas indicadas pelo amigo Luiz. 

A matéria original pode ser encontrada neste link.
http://luiz-domingues.blogspot.com/2016/01/ep-carcere-gandharva-por-luiz-domingues.html

Lembrando que o nosso amigo possui três blogs diferentes que estão nos links abaixo.
http://luiz-domingues.blogspot.com.br/
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Um breve release do Luiz feito pelo próprio:
Sou músico e escrevo matérias para diversos Blogs. Aqui neste Blog particular, reúno minha produção geral e divulgo minhas atividades musicais. Como músico, iniciei minha carreira em 1976, tendo tocado em diversas bandas. Atualmente, estou atuando com Os Kurandeiros.

Sem mais, vamos ao texto do Luiz

EP Carcere / Gandharva - Por Luiz Domingues


Como eu sei que as aparências enganam, não me deixei levar por deduções precipitadas assim que recebi o EP (para quem não sabe, trata-se um disco com uma porção mais reduzida de canções do que um CD tradicional), “Carcere”, do Gandharva, uma banda paulista vinda de Atibaia, no interior, mas logo aí, bem pertinho da capital de São Paulo.
Isso porque o título da obra, e a ilustração da capa em si, sugeriam algo explicitamente claustrofóbico, com um ar angustiante de liberdade limitada. Numa imagem difusa, uma pessoa com feições indefinidas, está na janela aparentando estar num momento de agonia, sem escapatória e cercada de mãos ameaçadoras que denotam opressão, violência, ameaça...
Em outras épocas, sem a prudência que o avançar da idade me trouxe como bônus de experiência de vida acumulada, eu já chegaria à conclusão que o trabalho da banda rezava pela cartilha do Punk-Rock ou do Heavy-Metal, mas antes de fazer conjecturas antecipadas, coloquei o disco para tocar e aí, a sonoridade surpreendeu-me agradavelmente.


Da esquerda para a direita : Anderson Xavier (bateria); Nikolas Rupa 
(Voz e Violão); Wellington Pires (Percussão e Voz), e Marc Matherson (baixo)

O Gandharva já inova pela formação primordial, pois consiste de violão; baixo; bateria, e percussão, portanto a ausência de uma guitarra já se mostra como algo não usual, numa primeira leitura.
Ouvindo canção após canção, verifica-se que a sonoridade é leve, mas não se furtam a alguns momentos mais pesados, e mesmo sem o “drive” da guitarra, expressam densidade de uma forma bastante convincente.
Outro ponto importante é que a banda apresenta múltiplas influências boas, portanto dentro desse ecletismo, alcançam um resultado que agrada em cheio ouvintes de orientações sonoras díspares entre si, sem nenhum problema. Ótimos músicos, imprimem uma condução cheia de swing em vários momentos do disco; densidade dramática em outros, como já mencionei, e delicadeza, com muitas sutilezas harmônicas e melódicas através dos bons arranjos que criaram coletiva e individualmente.


Gostei também da interpretação vocal e das letras, com questões de ordem existencialistas na maior parte do tempo, e aí justifica-se o título do álbum, e a concepção da capa, exprimindo a ideia da angústia; cerceamento da liberdade; falta de perspectivas etc. 
Mesmo abordando temas sombrios, não achei que o astral abaixou ao ouvir as canções, e pelo contrário, é uma audição agradável pela qualidade musical que conseguiram criar e executar.

A primeira faixa,“Me Faça”, tem uma levada de Blues-Rock, mas com concepção moderna, densa. Gostei muito da percussão criativa de Wellington Pires, e de fato, um percussionista de ofício e que se proponha a pensar seus arranjos no contexto das canções, tem que ser aplaudido, pois tais intervenções se jogadas a esmo, podem até estragar o resultado final de uma gravação, mas aqui, muito pelo contrário, caem como uma luva. A voz de Nikolas Rupa, que também é o violonista da banda, mostra-se agressiva, arranhada, com forte emissão e dá o recado com contundência. Tem uma guitarra dando apoio, mas que na verdade se trata de um violão, que passou por plug-ins de simulação de amplificadores e foi executado pelo músico convidado, Filipe Rocha. Gostei das suas intervenções delicadas com solos de timbres limpos, e um bom uso de slide. A bateria de Anderson Xavier é enxuta, gostei muito da precisão e da clareza dos timbres agudos dos tambores e caixa. Marc Matherson faz um baixo encorpado, muito seguro, realçando bem a condução das canções. Segura tudo na retaguarda, garantindo uma direção firme para a banda.

Já na segunda faixa, “Vida Longa”, uma bela incursão por algo próximo da MPB, com influências boas e nítidas. Numa excelente condução do violão, os demais vão junto e passeiam pelas dinâmicas interessantes que a canção oferece. Mais um vez uma guitarra limpa, e que lembrou-me o timbre de Mark Knopfler, trouxe colorido à canção. A voz do percussionista Wellington apoia em duo em alguns momentos, tornando a melodia ainda mais incisiva. Gostei da letra, bem poética :

“Vasto vento sopra o corpo todo em movimento”...
“Cada despedida, cada tentativa, um dedo na ferida”...

Na terceira faixa, “Carcere”, que dá título ao EP, eis o peso que mencionei no início da resenha. Denso, trata-se de um riff que lembra muito o som grunge dos anos noventa, notadamente de uma banda como o “Alice in Chains”. Gostei bastante da melodia e a mudança brusca da parte “A” para o refrão, saindo da densidade soturna, para algo bastante doce, melódico. Tem um teclado sutil, lá no fundo da mixagem, colocado como uma sombra quase imperceptível, mas que dá um incrível colorido à canção. O baixo de Matherson desenha bonito, numa linha bastante criativa, e a percussão alterna momentos de explosão incríveis na condução das congas, com calmaria em outros instantes, portanto, eu curti muito esse arranjo. Apesar do título, a letra não descamba para coisas angustiantes, embora marque presença, com personalidade.   

“Não aceito mais teu jogo sujo,
Não me aceito mais me ver no escuro
Não aceito mais me ver de luto”...

Gostei do forte sabor Folk da canção “Vida Nova”, mas mesclado ao Rock urbano. Nos momentos mais rurais, as cordas e a percussão brilham, trazendo dedilhados do violão dos mais agradáveis e na parte mais pesada, mais uma vez as sonoridades mais modernas se fazem presentes. Interpretação vocal visceral de Rupa, tem letra muito interessante. Gostei bastante da frase “Tem gente com medo que o medo, acabe”, pois isso é muito perturbador de se ouvir, mas é uma das maiores verdades para quem vive a loucura da vida urbana, em meio ao caos social da atualidade. Uma afirmação dessa monta é para fazer pensar, numa reflexão das mais pertinentes.

“Lobo em Pele de Cordeiro” é um blues rasgado, forte na concepção musical ao ponto de induzir o ouvinte a embarcar nele, viajando longe. “E não me fale com persuasão, pois o meu tédio não tem emoção” desvela as relações efêmeras que não levam a nada. Se isso é viver encarcerado numa mentira existencial, o recado está dado.

 "Viva a Diferença”, parece a canção mais pop do álbum, mas na verdade tem uma seriedade indiscutível. Gosto da melodia e parece ser uma marca estilística do Gandharva compor canções que transitam entre partes densas e doces, o que considerei um mérito. Mais uma vez aparece um teclado, desta feita mais proeminente, na forma de um rápido solo de órgão Hammond, ou um simulador dele, mais provavelmente, numa boa e certeira intervenção. “Viva a diferença, viva a liberdade, viva a sua vida, conquiste a sua parte”...mais um bom recado, sem dúvida.

No cômputo geral, o trabalho do Gandharva tem qualidade, mostra-se criativo e executado por bons músicos, compositores, cantores e arranjadores. 
Esse trabalho foi gravado no estúdio Box Music, com direção geral de Nikolas Rupa e produção de “Jibóia”. Masterização de Balieiro. 
Gostei do áudio do disco, com timbres bem definidos, peso, clareza e sem excessos de frequências que geralmente sobressaem-se após o processo da masterização.
Além dos quatro componentes citados, Filipe Rocha tocou teclados e violão como músico convidado.
O projeto gráfico ficou a cargo de ID Make Media.


A palavra “Gandharva” em sânscrito, significa na cultura indiana baseada nos “Vedas”, um tipo de casamento arrumado pelas famílias, sem interferência dos noivos na escolha um do outro.
Espero que o Gandharva tenha uma longo casamento, portanto, e que seus componentes continuem fazendo suas escolhas sonoras livremente, ao contrário do que a palavra sugere, em sua carreira, e lance mais trabalhos de qualidade artística como este.

Para quem quiser ouvir o som da banda:
https://soundcloud.com/banda-gandharva-oficial
Abraços e boa leitura!

sábado, 12 de janeiro de 2019

Pesquisar e ensinar...


Olá pessoal!
Para a primeira postagem inédita do site neste ano, elaborei um texto que explique um pouco sobre as minhas atividades educacionais e como penso as aulas que ministro presencial ou on-line.
Durante muitos anos de estudos e pesquisas, desenvolvi materiais para solucionar ideias musicais para os alunos, junto a este processo, as análises técnicas de estilos e músicos me fez entender as particularidades motoras, criativas e sonoras destes.
Portanto, ao montar as aulas, o foco principal se dá para que cada estudante de música consiga aplicar as ferramentas musicais dentro do universo sonoro que pretende obter. Desde a concepção de como funcionam as harmonias e os ritmos, até como tirar o melhor som, sempre com o foco voltado para o objetivo final, que é produzir música.
Tendo em vista essa minha busca incessante pelo melhor som e os padrões adequados, entrei em uma nova fase da minha carreira como professor, na qual busco a teoria destes verdadeiros esquemas para se montar a música com o som que o estudante tem na cabeça. Os estudos dos partimentos, por meio de uma metodologia desenvolvida nos séculos XVII e XVIII, unidos as schematas do estilo galante, até chegarmos as sequencias exploradas pelos músicos práticos do choro, do blues, do rock, dentre outros estilos, são as metas para a continuação dos meus projetos de pesquisas musicais.
Isto nada mais é do que a expansão, agora acadêmica, daquilo que fiz para as revistas especializadas, aqui no site ou em aulas. 
Ainda dentro das minhas pesquisas, as novas formas de se abordar a docência, com o desenvolvimento do ensino híbrido e das metodologias ativas, unidos ao método C.(L).A.(S).P. de Keith Swanwick, estão levando as concepções das aulas para além do espaço físico (ou mesmo do ambiente face a face do skype), além de promover uma expansão do tempo de aula, pois ao trazermos as verificações de aprendizagem, aplicações dos estudos, desenvolvimento da apreciação, entre outras opções, para o momento de aprendizagem no qual o aluno está disposto a executar, fazemos com que o aluno possa aproveitar muito bem o intervalo entre duas aulas.
É isso aí... uma pequena reflexão sobre as pesquisas que realizo para o mercado de trabalho há 20 anos e nos últimos 4 anos para o meio acadêmico.
Abraços e até a próxima coluna! 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Apostrophe' Trio - Apostrophe'




Partitura da linha de Contrabaixo

https://www.4shared.com/office/R7L6Mgvrgm/Apostrophe_-_Apostrophe.html

Música: Apostrophe'
Compositor: Fernando Tavares
Perfomance:
Lucas Fragiacomo - Guitarra
Fernando Tavares - Contrabaixo
Thiago Sonho - Bateria
Gravado, mixado e masterizado no estúdio Tecnoarte por Armando Leite
Arranjos: Apostrophe' Trio
Produzido por Fernando Tavares

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Artigos & Resenhas - Cosmo Drah - Por Luiz Domingues


Olá pessoal!

Estamos de volta com a última coluna do ano, e nela teremos mais uma coluna Artigos e Resenhas. Temos aqui mais uma resenha do sensacional Luiz Domingues, com uma análise detalhada do álbum homônimo da banda Cosmo Drah.

A matéria original pode ser encontrada neste link.
http://luiz-domingues.blogspot.com/2015/09/cosmo-drah-por-luiz-domingues.html

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http://luiz-domingues.blogspot.com.br/
http://blogdoluizdomingues2.blogspot.com.br/
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Um breve release do Luiz feito pelo próprio:
Sou músico e escrevo matérias para diversos Blogs. Aqui neste Blog particular, reúno minha produção geral e divulgo minhas atividades musicais. Como músico, iniciei minha carreira em 1976, tendo tocado em diversas bandas. Atualmente, estou atuando com Os Kurandeiros.

Sem mais, vamos ao texto do Luiz

Cosmo Drah - Por Luiz Domingues


Faz muito tempo que eu tenho boas referências sobre uma banda de Rock paulistana e contemporânea, chamada Cosmo Drah. Não foi uma ou duas pessoas, mas várias que a elogiaram, atribuindo-lhe diversas qualidades. Falavam-me  sobre a qualidade de suas composições, com arranjos muito bem elaborados; um vocalista de “gogó forte”, instrumentistas de muita técnica; letras incisivas; e muita inspiração na música produzida nas décadas de sessenta e setenta do século passado, tanto no Rock, como na MPB.


Sabia que haviam lançado um EP anos atrás, mas nunca tive a oportunidade de escutá-lo com atenção, e devido à minha tardia entrada no mundo virtual, demorei a ver vídeos da banda ao vivo, e quando os assisti, sim, comprovei que os elogios procediam e a banda tinha todos esses atributos.

Mas nada melhor que enfim ouvir com calma um álbum, com material inédito, e bem produzido em estúdio.


O disco homônimo do Cosmo Drah mostra essa determinação de se fazer Rock autoral com muita força expressiva, e sem nenhuma intenção de fazer concessão alguma ao sistema bandido, armado na difusão cultural mainstream deste país.
Só por essa coragem de mostrar seu trabalho sem nenhuma preocupação em tentar adequar-se ao que os formadores de opinião querem (esses famigerados lacaios dos marqueteiros do sistema, que impõe só o que lhes interessa como “moda” a ser seguida pelos que se deixam abduzir), já tem a minha simpatia, mas o disco vai muito além dessa resistência heroica.


Sim, a influência 60/70 é total, e aonde os críticos torcem o nariz, logo se preocupando em bater o carimbo de “datado” no produto, eu enxergo o mérito de se ter o bom gosto de buscar fonte inspiradora nobre, aliás, a melhor possível quando o assunto é Rock.
Se o artista se mostra moderno no seu áudio, mas traz na parte artística tal influência explícita, é a meu ver um “religare”, ao contrário das opiniões em contrário de críticos que abominam a fonte em questão por outras razões, e aí sim, se portando como “datados”, insistindo em bater continência à um paradigma errôneo criado em 1977, de onde se decretou que fazer música bem composta; bem arranjada; e bem tocada, era “feio”. Sim, “faça você mesmo”, mas faça bem feito, ora bolas...

Mergulhando então no disco, a primeira faixa chamada “Labirinto”, apresenta-se com muita contundência sonora. Lembrando bastante o trabalho de bandas Hard-Rock setentistas (Budgie; Toad; Dust; Sir Lord Baltimore; Black Sabbath e outras desse quilate), impressiona pelos ótimos timbres dos instrumentos, e densidade.
O inconformismo da letra, dá uma amostra da amargura que sentem em viver deslocados em meio à um mundo sombrio. Não é lamento, mas constatação:
“O que procuram todos, me machuca.
O que procuro, não há luta
Busco de onde veio essa gente
Que se extermina sutilmente”

“Hospício” vem a seguir como segunda faixa do disco.
Gostei muito do acréscimo de percussão gravada pela musicista Clara Andrade. Tal participação conferiu à música, um swing muito bom, casando-se perfeitamente com a proposta da composição, quase esbarrando no R’n’B, e na Soul Music. Ecos de James Gang, Captain Beyond e Cactus soaram na minha audição/percepção, e algumas passagens mais Hard, remeteram-me ao trabalho intrincado do Módulo Mil, banda brasuca de muita qualidade, do hoje saudoso Daniel Cardona.
Na letra, escrita pelo vocalista Ruben Yannelli, a metáfora é a liberdade. A ideia de cerceamento de ideias e expressão é claustrofóbica e revoltante, sempre.
“Já faz tempo me prenderam
Sem motivo ou razão”...

“O Poder, terceira canção, tem um sabor Country-Rock agradável. 
Remeteu-me aos momentos psicodélicos mais caipiras do Grateful Dead. Uma intervenção muito boa do guitarrista ótimo Carlinhos “Jimi” Junior como convidado da banda, trouxe o sabor de sua grande especialidade, ou seja, o timbre ácido de Jimi Hendrix pilotando uma guitarra Fender Stratocaster.
Mais uma vez, o Cosmo Drah vem com uma letra forte, e chamou-me a atenção que ao contrário de muitos artistas que batem no sistema como se esse fosse o grande culpado de todas as mazelas da civilização, o enfoque foi outro, indo ao âmago da questão, ou seja, o sistema é só uma criação oriunda de um conjunto de paradigmas, e estes nascem na mente do ser humano. Portanto, não é o sistema que nos oprime, mas o próprio ser humano que o criou, realisticamente falando...     
“É uma Síndrome Global,
E o prazer de Ter,
Sem Separar do Verbo Ser”...

A quarta faixa, “Subversão” mostra vários méritos musicais.
Para início de conversa, trata-se de um Hard-Rock “ganchudo”, onde lembrou-me a banda brasileira setentista, A Bôlha, do também saudoso Renato Ladeira.
Gostei bastante das mudanças bruscas entre as partes da canção, remetendo-me ao trabalho da banda germânica Nektar, que era craque nesse recurso estilístico. Até mudança de compasso, entrando num 6/8 bem esperto, o Cosmo Drah nos apresenta. 
Acrescento que existe uma boa intervenção de teclados (executado pelo baixista Elton Amorim), e uma surpresa boa quando num looping dramático, demonstram evocar inspiração em “I Want You”, dos Beatles, com bastante energia.

A quinta faixa é homônima.
Em “Cosmo Drah”, gostei de muitos signos interessantes ali contidos. Por exemplo, o bom uso do Wah-Wah pelo guitarrista Anderson Ziemmer; boa intervenção de backing  vocals inspirados na Soul Music; o recurso de ruídos fantasmagóricos dando uma saborosa e criativa estranheza sonora; e um vocal que lembrou bastante o trabalho de bandas como o Uriah Heep e o Queen, que se esmeravam para elaborar corais grandiloquentes.
Cabe uma análise mais pormenorizada sobre o solo dessa canção. 
Sob um bonito arpejo como base, a opção por um solo duplo e sobreposto foi ousada. Terreno espinhoso, pois tal recurso carece de uma observação sempre muita atenciosa da parte da produção do áudio em estúdio, acho que o guitarrista Anderson Ziemmer, e o produtor Thiago Nacif foram felizes, pois souberam desenhar os solos de uma forma criativa.
Solo duplo simultâneo é como arremesso de três pontos numa partida de basquete. É um risco enorme, pela dificuldade em acertar, dando margem ao erro, onde além de não se marcar os três pontos, abre-se chance para a equipe adversária contra-atacar.
Portanto, o Cosmo Drah arriscou, mas acertou a cesta a meu ver, nesse quesito.

“Caos” tem cara de Blues-Rock, bem daquela fase de fim de anos sessenta, lembrando Tem Years After; Fleetwood Mac- fase Peter Green; Taste, e um certo peso a mais que tende ao Grand Funk nos seus primórdios de carreira, e Blue Cheer, naturalmente.
O uso de muitas convenções intrincadas também remete à outra boa influência em minha percepção, aproximando-se do trabalho cerebral do King Crimson.

O que mais chamou-me a atenção na faixa “Nova Estação”, foi a criatividade da letra, em fugir de clichês, muito embora o tema escolhido seja açucarado.
A relação homem-mulher tende a ser difícil para um letrista escrever algo diferente e não sujeito à pieguice que a norteia de forma sempre contundente. Portanto, acho que o vocalista Ruben Yannelli foi feliz nesse quesito, driblando os clichês.
“falsidade, chatice...quem é você ?”

Musicalmente, gostei do sabor Rock-MPB setentista, lembrando o trabalho de uma banda histórica como O Terço, por exemplo, mas senti pitadas de Secos & Molhados, também, e uma certa influência porteña de bandas como Pescado Rabioso e Sui Generis, e eu sei que os componentes do Cosmo Drah tem grande apreço ao Rock argentino setentista, aliás, sinal de extremo bom gosto, diga-se de passagem.

“Salamandrah” tem um instrumental bastante rico, lembrando-me o trabalho do Som Imaginário, com tanto colorido harmônico. Mas apresenta também um lado pesado, com certas passagens mostrando a densidade do Black Sabbath. Ouvindo no fone de ouvido e tentando buscar mais detalhes, viajei longe, e senti outras influências bacanas. Pensei no Gandalf; Sweet Leaf; Smoke...ou seja, bandas mais obscuras, mas de grande qualidade naquele panteão 60/70. 
Delírio deste resenhista que vos fala ? 
Idiossincrasia ? 
Ouça e tire sua conclusão !

Gostei muito de “Velho Mestre”, uma canção com forte sabor do Rock Rural setentista. Impossível não remeter ao Sá; Rodrix & Guarabyra, e mesmo aos bons trabalhos solo de Zé Rodrix.
Um bonito solo de violão, e o uso de um teclado etéreo que quase soou como um velho mellotron, são destaques, também.

Em “Mágica do Tempo”, o Cosmo Drah mostrou seu lado “Krautrock”. Lembrando o som de bandas germânicas como o Lucifer’s Friend; Guru-Guru, e Jane, eleva o Hard-Rock pesadão ao patamar do Art-Rock.

A última faixa do álbum, é “Roedor Renegado”. Aqui, há um caldeirão de boas influências amalgamadas.
A já mencionada referência ao Rock argentino setentista, se faz muito presente nesta faixa. Lembra Almendra, mas também tem algo do Blues do Aeroblues, sem dúvida. Tem muito de Rock brasuca setentista, também.

Sobre a atuação individual dos componentes do Cosmo Drah, nesse trabalho, gostei muito.


O baixista Elton Amorim tem bastante técnica e sua criatividade nas linhas que criou, são muito agradáveis. Seu baixo é melódico, bastante incisivo enquanto peso e presença, empolgando em todas as faixas. Acrescento que não poderia ser de outra maneira, dada a quantidade enorme de boas influências que tem na sua formação pessoal, aliás, caso dos quatro componentes.

Gostei muito da bateria de Renato Amorim, irmão de Elton, e outro caso de uma cozinha familiar de alto padrão e entrosamento, tal qual no exemplo dos irmãos Busic, Andria e Ivan. Ótima condução, com muita criatividade nas viradas; muito firme e preciso, pontual e expressivo no uso dos pratos; e bom gosto extremo na escolha dos timbres das peças de sua batera, com um peso e um brilho muito bons. Claro, o dedo do produtor Thiago Nacif pesa no quesito timbre, tendo esse mérito também.

O guitarrista Anderson Ziemmer é excelente, também. Bom harmonizador e solista, confere muita qualidade ao som do Cosmo Drah. Muito bom nos riffs & licks, brilha muito no disco inteiro.

E finalmente falando do quarto componente, o vocalista Ruben Yannelli, creio que seja uma das grandes vozes da cena do Rock brasileiro da atualidade. Dono de um vozeirão potente, com forte emissão, lembrou-me Luiz Carlos Porto e Fughetti Luz, vocalistas emblemáticos do Rock Brasuca setentista. E seu trabalho como letrista também merece destaque, mostrando inspiração e contundência.


Por falar nisso, sobre a parte poética, é bem verdade que no cômputo geral a banda apresentou nesse disco um clima pesado nas abordagens. Num primeiro olhar, poderia dar a entender que as letras são pessimistas, dadas ao desalento, como uma manifestação de desesperança sombria. Mas eu descarto essa visão, apesar da aparência inicial, pois nas entrelinhas, não creio que haja tal carga proposital. Em minha opinião, a proposta é outra, buscando a denúncia, mas sem o conformismo, tampouco o lamento em forma de ”mimimi”, tão comum na atualidade, como observamos nas Redes Sociais da Internet.
Sobre o áudio do disco, gostei bastante. Tem a pressão sonora moderna da era digital, mas as timbragens são bastante agradáveis e semelhantes ao áudio analógico de outrora. Tudo soa bem proeminente, e na velha escola de padrão de mixagem para uma banda de Rock, onde a voz é tratada como mais um instrumento, e não gritante na frente de tudo, como nas gravações comerciais de intenção pop/radiofônicas. Sendo assim, realço o bom trabalho do produtor Thiago Nacif, auxiliado pelo “tape engineer”, André Ferraz, do estúdio “Da Paz”.

Há de se destacar também a presença do produtor fonográfico, Eduardo Lemos, que representando a gravadora Melômano Discos, apostou numa banda de qualidade ilibada, embora outsider no mercado mainstream, portanto, atitude assim, pensando na arte e não em cifras, tem que ser muito louvada da parte de quem gosta de música, arte & cultura de uma forma geral, e em específico do Rock brasileiro autoral, e fora de panelas mafiosas.


Sobre a capa, o que dizer de mais um trabalho de Diogo Oliveira ?
Sou muito suspeito para elogiar o trabalho desse enorme artista plástico/publicitário/web designer/músico e grande agitador cultural, pois já desenhou capa de disco de banda minha, muitos cartazes de shows e assinou vídeo-clip de enorme sucesso e criatividade de um trabalho meu.
E constato com alegria, que é mais uma resenha de álbum de uma banda brasileira que preparo (ler sobre o CD “O Voo do Marimbondo”, do Vento Motivo, no arquivo deste Blog), e tenho o prazer de saber que mais uma arte de capa/encarte é assinada por ele.
Sobre a ilustração em si, Diogo buscou o lúdico dentro do realismo fantástico. Tem um certo sabor Sci-Fi, é verdade, mas o que é marcante mesmo, é o Ser flutuante tocando o solo com o dedo indicador, fazendo alusão ao telúrico. Mais uma vez o Diogo se mostra um mestre da ilustração, pois nessa sua concepção, sintetizou o trabalho do Cosmo Drah, ao fazer a ponte entre o som que nos faz viajar e a realidade da vida material. É etéreo e chão, ao mesmo tempo.



Um resumo de cada faixa do álbum, nesse "teaser" acima, postado na Internet 
Para conhecer melhor o trabalho do Cosmo Drah, procure a sua página na rede social Facebook :

Para contato direto com a banda, procure :
cosmodrah@gmail.com

Vale a pena também conhecer o catálogo da gravadora Melômano Discos :

Recomendo o trabalho do Cosmo Drah, com esse primeiro álbum homônimo, com certeza.

É isso aí pessoal!
No ano que vem voltaremos com novas colunas aqui no site!
Boas festas!