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quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Artigos & Resenhas - CD Preces e Tentações/Pepe Bueno & Os Estranhos - Por Luiz Domingues

 

Olá pessoal! 

Estamos de volta com mais uma coluna Artigos e Resenhas aqui no nosso site. Dessa vez o sensacional Luiz Domingues nos fala sobre o álbum Preces e Tentações/Pepe Bueno & Os Estranhos.

A matéria original pode ser encontrada neste link.

http://luiz-domingues.blogspot.com/2019/09/cd-preces-e-tentacoes-pepe-bueno-os.html

Lembrando que o nosso amigo possui três blogs diferentes que estão nos links abaixo.

Um breve release do Luiz feito pelo próprio:

Sou músico e escrevo matérias para diversos Blogs. Aqui neste Blog particular, reúno minha produção geral e divulgo minhas atividades musicais. Como músico, iniciei minha carreira em 1976, tendo tocado em diversas bandas. Atualmente, estou atuando com Os Kurandeiros.

Sem mais, vamos ao texto do Luiz:

CD Preces e Tentações/Pepe Bueno & Os Estranhos - Por Luiz Domingues



Artista inquieto por natureza, o baixista, cantor e compositor, Pepe Bueno sempre portou-se sob extremo entusiasmo na sua relação ao Rock, desde o tempo em que esteve à frente do Tomada, uma banda que escreveu belas páginas na história do Rock brasileiro, a partir do final dos anos noventa. 

Com o Tomada a trabalhar com força total, Pepe achou uma brecha para lançar um álbum solo em 2008, denominado: “Nariz de Porco Não Tem Tomada”, um dito popular a provocar uma brincadeira com a sua própria banda. Alguns anos depois, eis que Pepe retornou a movimentar a sua carreira solo, quando lançou o CD “Eu, o Estranho”, o seu segundo álbum solo, em 2016. 

Desta feita, porém, a despeito da atividade do Tomada continuar com força na ocasião, o segundo disco solo trouxe uma nova possibilidade para Pepe, além de um uma simples vazão para a sua energia criativa extra-banda, ao ser exercida a contento. Isso por que tal álbum inspirou o avanço de uma carreira solo com maior ênfase e para tal, o artista batizou doravante tal trabalho como: “Pepe Bueno & Os Estranhos”. 

Para ler pela primeira vez ou reler a resenha que elaborei sobre o álbum anterior: “Eu, o Estranho”, eis o Link disponível em meu Blog 1:  


Nesse ínterim, Pepe Bueno lançou diversos vídeoclips, pois entre outros atributos pessoais, ele é também um experiente editor de peças audiovisuais. 


Recentemente, 2019, eis que Pepe anunciou o lançamento de mais um álbum, sob a chancela, “Pepe Bueno & Os Estranhos”, e denominado: “Preces & Tentações”. Cercado por um batalhão de músicos geniais, não haveria possibilidade desse novo trabalho não atender a expectativa natural da parte de qualquer ouvinte que esteja a acompanhar a carreira solo de Pepe Bueno, à frente de seus talentosos e “estranhos” (no ótimo sentido), companheiros de jornada, ou mesmo dos trabalhos do Tomada e para ir além, ao citar esses artistas que dão-lhe o devido suporte, ao pensar-se em cada um, individualmente, em face de seus trabalhos a bordo de bandas significativas e em alguns casos, algumas a revelar-se históricas.

Posto isso, cabe dizer que sim, “Preces & Tentações”, atende prontamente as expectativas geradas em torno de uma coleção de boas canções pautadas pelas melhores referências do passado nobre do Rock, a observar não apenas o aspecto em torno da estética escolhida para assim poder expressar-se, mas também através da fidedignidade da formatação musical em relação aos arranjos individuais da parte dos instrumentistas e cantores envolvidos no bojo da obra. 

E ao ir além, sobre a questão da temática das letras, realça-se a preocupação de Pepe e de seus Estranhos, no sentido em buscar os melhores timbres, o melhor áudio e nesse particular, arrole-se entre os “estranhos”, também a participação especial dos técnicos de gravação, mixagem e masterização do trabalho, envolvidos, indelevelmente comprometidos com as mesmas ideias artísticas.

O mesmo pode-se afirmar sobre o aparato gráfico do trabalho ao mencionar o trabalho de ilustração/lay-out da capa do álbum. 

Bastante provocativa, a imagem de uma freira estilizada com detalhes que sugerem traços fisionômicos reptilianos, avança sobre o conceito do realismo fantástico em uma primeira instância, no entanto, logicamente abre a possibilidade para diversas interpretações análogas. 

Desenho criativo, sem dúvida, também faz jus à questão da estranheza em si, ou seja, a tratar-se de um conceito que inspirara o título do álbum anterior de Pepe (“Eu, o Estranho”), e por ter ficado tão forte no imaginário proposto pelo artista, eis que batizou a sua banda de apoio, posteriormente. 

Criação e lay-out de Sandro Saraiva, certamente que é um cartão de visita sob o ponto de vista visual, a revelar-se atrativo para o álbum.

Sobre as canções, é preciso acrescentar mais algumas observações pertinentes. Enquanto o leitor continua a acompanhar a resenha, convido-o a escutar o álbum, na íntegra, através do link abaixo, no YouTube:


“Respira” 

Tratada como uma vinheta, essa faixa com pequena duração é marcada fortemente pelo experimentalismo explícito. Mediante uma linha mestra proporcionada pelo baixo, no sentido de um "looping", dá-se a margem ideal para que os outros instrumentos participantes aventurem-se em voos, caso dos teclados e das guitarras em sobreposição e devidamente sustentadas por uma linha de bateria a buscar um certeiro sentido tribal. 

Lembra de certa forma, o Space-Rock da transição dos anos 1960, para a década de 1970, além do Krautrock germânico mais radical da década de setenta. Vozes a balbuciar palavras aparentemente desconexas, ajudam a manter o clima em tom da estranheza generalizada e certamente a mostrar-se como uma introdução perfeita para uma banda que observa a estranheza como o seu mote. Entretanto, isso é uma pista falsa se o ouvinte está a conhecer esse trabalho pela primeira vez, pois a seguir, o trabalho expressa na continuidade do álbum, a característica mais Pop da música convencional e com muitos méritos.

“Calma”

Trata-se de uma bela balada, com uma melodia agradabilíssima, e cuja vocalização principal foi defendida por um grande parceiro de Pepe, na figura do cantor, guitarrista & compositor, Fernando Ceah. Não consta na ficha técnica uma especificação formal e elucidativa, mas ao levar em conta que Ceah é um grande letrista, é possível que tal letra tenha sido a sua contribuição à canção, visto que ele é coautor da música junto à Pepe e também a contar com o baterista superb, Junior Muelas. 

O backing vocals com a palavra: “calma”, a intercalar e a comandar o refrão central, é muito bom. Tem tudo a ver com a menção feita na faixa anterior, que chama-se: “respira”, ou seja, respirar e acalmar-se talvez seja a única solução para enfrentarmos a loucura diária, imposta-nos em torno das agruras da sociedade pautada pelo mega consumo, e assim criada para justificar a preocupação em ter que honrar os boletos que mandam-nos diariamente em nossas respectivas residências. Em suma, só resta mesmo ao cidadão comum, buscar acalmar-se para que não sucumba ao colapso nervoso total. 

Na parte musical, é adorável o uso de bases com farto uso da caixa Leslie. Contra-solos inspirados de guitarra, pincelam a canção a colori-la muito bem. 

A levada da cozinha é flutuante. O cowbell inserido como detalhe percussivo, segue essa ideia da simplicidade, mas é na singeleza que tais sutilezas realçam-se com muita felicidade. Uma parte inspirada no Hard-Rock é muito bonita, com peso, mas não mostra-se desmesurado, ao manter-se melódico, portanto. O apoio do órgão Hammond também é discreto, mas muito eficaz.

“E com fé eu vou... das seis às seis eu tenho meta a cumprir... calma... calma... calma”

“Esconderijo”

Eis aqui um canção a conter um sentido R’n’B, bem forte, por investir em uma ótima melodia. Lembrou-me bastante o trabalho do grupo britânico, "Faces", no início dos anos setenta, mas claro, essa colocação é uma mera impressão pessoal de minha parte, e portanto não significa que Pepe Bueno & Os Estranhos tiveram tal inspiração exatamente como eu intuí. Sob um instrumental excelente, dá-se a margem para que Pepe a cante com desenvoltura e coloque à disposição do ouvinte, o seu bom baixo, com tranquilidade, igualmente.

“Vida”

É interessante o seu início, a mostrar-se bluesy, com o piano e o baixo a mantê-la amena, sob uma batida marcada pelos tambores, predominantemente, na bateria. 

O solo de guitarra é muito melódico e ao mesmo tempo encorpado pelo excelente trabalho de áudio a garantir-lhe um timbre memorável. Excelente também se mostra a participação dos teclados, inclusive a apresentar a inserção do mellotron, um tipo de timbre ultra identificado com as décadas de 1960 & 1970, e que sempre enriquece sobremaneira qualquer trabalho com tal intenção em demarcar as influências do melhor do Rock.

“Último Dia de Verão“

Eis aqui, ótimo trabalho com violões, mesclados com as guitarras. Evoca-se a riqueza musical do Southern Rock, sem dúvida. Mediante o uso dos teclados com muita propriedade, a conter uma ótima linha de baixo e sob uma melodia muito boa, eis aqui, uma canção muito boa em todos os quesitos.

“Cá, Entre Nós”

Uma balada Bluesy, lenta e introspectiva, e que contém novamente um aparato instrumental de primeira linha. Teclados, guitarras, violão, baixo e bateria em perfeita sintonia, ofertam em sintonia, uma amálgama perfeita para a melodia vocalizada fluir e narrar uma história de amor, para citar logradouros paulistanos, ou seja, a conter uma urbanidade perfeita.

“Não Muda Mais” (Você é uma Maluca)

Conduzida pela voz rasgada do cantor & guitarrista, Xande Saraiva, trata-se de um Blues-Rock vigoroso, com ótima instrumentação. Tem muito a ver com os primórdios da carreira do Tomada, portanto, é uma raiz natural de Pepe Bueno, a mostrar-se sempre presente em sua obra, que bom. 

Uma novidade interessante, no release do álbum, é mencionada a existência de três faixas adicionais, que serão disponibilizadas a posteriori, quando o álbum for lançado em formato físico, em CD tradicional. Tratam-se de: “Tempo, Um Mundo Diferente”, “África” e a releitura de uma canção de Guilherme Arantes, “Estranho”. Este álbum foi produzido em vários estúdios, daí a existência de vários endereços na ficha técnica.

Eis então um novo álbum de Pepe Bueno & Os Estranhos, a mostrar uma continuidade sólida em relação ao trabalho anterior, e que eu recomendo, certamente.

Gravado nos estúdios: Orra Meu, Carlini’s Studio, Casa 88 e Curumim, de São Paulo-SP e também no estúdio Área 13 de São José do Rio Preto-SP

Técnicos de gravação (captura): Marcello Schevano, Gustavo Barcellos, Rafael Magno, Gabriel Martini, Roy Carlini, Fernando Ceah, Claudio “Moko” Costa e Alberto Sabella
Mixagem: Pepe Bueno e Gabriel Martini
Masterização: Renato Copolli
Capa (Arte-final e Lay-Out): Sandro Saraiva
Fotos: Cristina Piratininga Jatobá e Marcelo Creelece
Produção Geral: Pepe Bueno
Selo: Curumim

Pepe Bueno & Os Estranhos:
Pepe Bueno: Baixo, Voz, Guitarra, Violão e Lap Steel
Pi Malandrino: Guitarra
Alberto Sabella: Teclados e Trutuka (um instrumento de sopro)
Junior Muelas: Bateria e Percussão
Xande Saraiva: Guitarra e Voz
Roy Carlini: Guitarra
Rodrigo Hid: Teclados
Caio Lobo: Voz
Marcello Schevano: Guitarra
Gabriel Martini: Bateria
Claudio “Moko” Costa: Guitarra
Chico Marques: Voz
Fernando Ceah: Voz

Para conhecer melhor o trabalho de Pepe Bueno & Os Estranhos, acesse:

Multi Link para escutar o álbum em diversas plataformas digitais : 



Contato direto com Pepe Bueno via E-mail: 
peperockista@gmail.com 

Página de Pepe Bueno no Facebook:  


Site oficial de Pepe Bueno: 


É isso aí pessoal!
Espero que gostem desta resenha e principalmente, curtam o trabalho do Pepe
Abraços e até a próxima coluna!

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Artigos & Resenhas - Eu, o Estranho / Pepe Bueno - Por Luiz Domingues


Olá pessoal!

Estamos de volta com mais uma coluna Artigos e Resenhas aqui no nosso site. Dessa vez o sensacional Luiz Domingues nos fala sobre o álbum do baixista Pepe Bueno "Eu, o estranho". Vale a pena conhecer o trabalho deste inquieto músico apresentado pelo Luiz.

A matéria original pode ser encontrada neste link.

https://luiz-domingues.blogspot.com/2016/05/eu-o-estranho-pepe-bueno-por-luiz.html

Lembrando que o nosso amigo possui três blogs diferentes que estão nos links abaixo.

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/
http://blogdoluizdomingues2.blogspot.com.br/
http://luizdomingues3.blogspot.com.br/

Um breve release do Luiz feito pelo próprio:

Sou músico e escrevo matérias para diversos Blogs. Aqui neste Blog particular, reúno minha produção geral e divulgo minhas atividades musicais. Como músico, iniciei minha carreira em 1976, tendo tocado em diversas bandas. Atualmente, estou atuando com Os Kurandeiros.

Sem mais, vamos ao texto do Luiz

Eu, o Estranho / Pepe Bueno - Por Luiz Domingues



Pepe Bueno, é baixista de uma banda de Rock chamada, Tomada, que já conta com uma carreira longeva na cena Rocker paulistana. Super ativo como músico; produtor musical e envolvido também com audiovisuais, é irrequieto por natureza e não obstante o fato de batalhar arduamente por sua banda, encontra fôlego para trabalhos musicais paralelos em regime solo. 

Em 2008, lançou seu primeiro álbum solo, “Nariz de Porco não é Tomada”, numa clara alusão em tom de brincadeira com o nome de sua própria banda. E nesse trabalho, já surpreendeu positivamente ao fugir do clichê de que disco solo de baixista tem que ser inteiramente instrumental e calcado em Jazz-Fusion, recheado de solos de baixo. Pelo contrário, tratou-se de um disco repleto de canções com teor Rock e apelo pop convidativo. 

Agora (2016), lança um novo trabalho solo e surpreende mais uma vez, ao trazer elementos os mais diversos, ainda que a formatação seja a de um conjunto de canções curtas, algumas com potencial radiofônico, até. 

Não obstante o que citei acima sobre o caráter pop de algumas canções, seu novo álbum investe bastante em psicodelia; experimentalismos e loucuras em geral, lembrando os primeiros álbuns dos Mutantes em muitos aspectos.

Com muita qualidade nas composições e arranjos, o álbum prima também pelo alto padrão instrumental, pois Bueno cercou-se de ótimos músicos a acompanhá-lo como banda base, além de alguns convidados pontuais e sensacionais. Contando com Alberto Sabella (teclados, guitarras) e Junior Muelas (bateria e percussão), componentes da excelente banda “A Estação da Luz”, como seu núcleo base, Bueno também contou com quatro guitarristas da pesada (Denny Caldeira; Xande Saraiva-Baranga-; Edu Gomes e Pi Malandrino); as cantoras Renata Ortunho (também componente da Estação da Luz), e Débora Camiotto; além do vocalista Fernando Fish (ex-componente da Estação da Luz).

Com um time desses, tendo boas composições nas mãos e arranjos criativos na cabeça, não tinha como dar errado, e de fato, não deu outra mesmo, tratando-se de um excelente álbum.



A primeira faixa se chama “Se Abra” e cabe uma explicação em relação ao seu título, visto ter uma segunda intenção em tom de homenagem prestada. Além da ideia de “se abrir ao som” como sugere inicialmente o título, foi também a maneira pela qual Pepe Bueno homenageou o saudoso baixista, Renê Seabra (Se Abra...), que era muito amigo dele e de quase todo mundo no meio Rocker de São Paulo, incluso este que vos escreve. Tema instrumental, passeia pelo Jazz-Rock setentista com intenções funkeadas, mostrando muita versatilidade musical. Apresentando uma introdução que lembra bastante o trabalho de Frank Zappa, tem uma linha de baixo intrincada, com intervenções muito ricas da guitarra e sobretudo pelos teclados pilotados por Alberto Sabella, que usou seu arsenal setentista sensacional, de forma soberba. Tem clavinete swingado; um piano muito Chick Corea; órgão Hammond esquizofrênico a La Ken Hensley, e um solo de baixo muito louco para derreter os miolos do ouvinte. Aliás, para introduzir a entrada do referido solo, uma frase emblemática (e engraçada), que era um bordão criado e usado pelo grande Renê, é pronunciada : -“Hey, Bro, liga o phodalizer”, uma pilhéria que sempre arrancou risadas de quem o ouvia falar isso. É de fato, a única intervenção vocal da faixa, que é instrumental. Junior Muelas, que é um dos meus bateristas prediletos na cena Rocker brasuca moderna, é tão seguro e preciso, quanto esperamos dele, e ainda colocou uma intervenção de percussão com cowbell e reco-reco, estratégica, trazendo um molho todo especial em alguns trechos.  

E lá vamos nós de encontro à segunda faixa, chamada “Rotina”, com uma deliciosa pegada, ao melhor estilo das influências sessentistas que buscavam inspiração nos anos trinta do século passado. É folk; bucólico; silvestre,  lembra Donovan, Beatles, e tem seu sabor de Rock Rural, como se estivéssemos no interior de Minas ouvindo um disco do Sá; Rodrix & Guarabyra, numa casa no campo. Gosto muito da docilidade do Mellotron a la Beatles, desenhando junto com a voz principal e os backing vocais. É bem divertida também a intervenção do baixo de Bueno, usando um recurso bem exagerado (Synth Bass, na verdade), numa condução típica de música Folk, realçando-a. Muito bacana o órgão Hammond "limpo", sem caixa Leslie, ao estilo “igreja”, que aparece vez por outra. Tem muitos detalhes de cordas, incluso um lap steel (executado pelo próprio Bueno, que aliás, pilotou vários violões e guitarras no disco todo), bem caipira e bem legal, é claro... Letra muito hippie, gosto dessa suposta ingenuidade perdida, mas que suplanta em muito a insistência de letristas pessimistas ao pintar o mundo de cinza.

“Deixe o sol entrar na sala, abra a porta ou deixe um vão; 
raio de luz mostra a vida, mais simples que a escuridão”...

Fecho com o “mahatma” Harrison nessa questão de deixar o sol entrar, sempre...portanto, vai é que sua Pepe Bueno !

“Vale Dizer” é outra canção “beatle” (mas tem um quê de Small Faces nas entrelinhas, também), de pegada mezzo folk, mas a despeito de numa primeira impressão que tive, a opção por ter ficado logo a seguir da anterior ter sido errada, pela quase similaridade estilística, ao ouvi-la com atenção, minha impressão dissipou-se por completo. Muitos elementos da teia beatle de sonhos lúdicos estão ali representadas. Solo de cravo trazendo o elemento erudito via George Martin; Melloton doce a la "Strawberry Fields"; trechos em staccato; órgão Hammond; baixo de timbre grave e aveludado marcando tônica e quinta, ou quarta abaixo; e guitarras pesadas a realçar partes mais dramáticas. Lembrou-me também muitas canções da carreira solo do Ringo Starr, sempre alimentada pela cordialidade e genialidade de seus amigos...

A quarta faixa se chama “Bem à Vista”. Apostando no ritmo 6/8, tem uma condução de baixo e bateria muito envolvente. Os teclados brilham muito; o órgão Hammond lembra muito bandas de Hard Rock setentistas como o Uriah Heep; Jane; Lucifer’s Friend e outras, com peso e saturação. Gosto da parte B, muito dramática, num crescente harmônico. É melancólica a melodia, principalmente pelo fato de ser realçada pela letra poética (“A escuridão vai chegar/E eu não vou me preocupar/Em acender a luz e sim em esperar/O dia amanhã ser e o sol/Chega cedo e brilha forte/Pedindo o seu espaço”). Lembrou-me pela intensidade, a cadência de “1921”, do disco Tommy, do The Who. Os backing vocals são sensacionais, com um desenho de notas esticadas em mínimas e semínimas, lembrando muito o trabalho vocal dos irmãos Nardo, nos bons tempos de Rita Lee & Tutti Frutti. 

“Última Prova” tem um baixo com timbre sensacional, e riff ganchudo que lembra bastante os trabalhos solos de George Harrison. Muelas e Sabella brilham muito. Gostei bastante da base de guitarra, também, com uma densidade rara, mas sem cair na tentação dos timbres modernosos e crunchados de bandas de orientação pesada, pelo contrário, bem vintage (e por isso agradou-me, é claro, ha ha ha...).

“Tudo o que queria” é a sexta faixa do disco e investe no country Rock. O timbre do órgão Hammond e do piano são puro The Band. É como se Richard Manuel e Garth Hudson tivessem-na gravada, mas certamente que jogaram suas bênçãos sobre Alberto Sabella. Tem ótimo refrão e apoio da guitarra nessa canção.

“Pote de Mal” é um tremendo Blues-Rock em 6/8, com influências as mais nobres, passeando entre o Humble Pie; Mountain, Ten Years After; Robin Trower; Rory Gallagher  etc etc. Muito bacana o vibrato da guitarra em alguns trechos. Curti toda a loucura experimental a La Whole Lotta Love, do Led Zeppelin, no meio da canção, e o solo de guitarra é de arrepiar.

Por fim, a última faixa é emblemática ao bojo da obra toda. Justificando a temática que evoca a estranheza psicodélica, na canção “O Estranho”, Pepe Bueno chuta o pau da barraca e aposta as suas fichas na rodada final do seu carteado, com muito experimentalismo; estranheza & psicodelia. Lembra muito o trabalho de bandas como o Gong; Can; Mutantes nos seus primeiros tempos; trabalhos  solo de Syd Barrett, e com a intervenção vocal de Débora Camiotto numa locução anárquica, traz a lembrança do trabalho de Arrigo Barnabé. Completamente louca, é uma faixa instigante que fecha bem o álbum e justifica seu título, como uma ode à loucura. 

O disco foi gravado em dois estúdios. Parte no Área 13, de São José do Rio Preto / SP, estúdio de Alberto Sabella que pilotou a gravação, e parte no Cakewalking, de São Paulo, do não menos ótimo, Edu Gomes, que também fez a pilotagem dos botões. 

O áudio ficou muito bom, moderno com "level" alto, embora em alguns momentos eu tenha achado que a voz solo de Pepe Bueno tenha ficado numa briga com o instrumental. Vejam, sou um Rocker inveterado e detesto o conceito pop  / comercial de se colocar a voz solo muito acima do instrumental, e pelo contrário, cresci ouvindo discos de bandas de Rock clássicas com conceito oposto, de vozes quase no mesmo patamar dos instrumentos. Mas senti em alguns trechos uma certa dificuldade na inteligibilidade das letras. Claro, pode ter sido proposital para realçar a estranheza proposta na obra, conceitualmente portanto.  

Sobre a capa, cabe um parênteses. Assinada por Fábio Mata (que também assinou a capa do CD debut da Estação da Luz), é um dos melhores trabalhos dos últimos tempos, numa colagem muito criativa. Fazendo jus ao mote geral da obra, trabalha a ideia da estranheza expressa através de conceito surrealista, apresentando uma ilustração emoldurada como um quadro de exposição, mostrando a perturbadora figura de dois homens numa mesa de restaurante, mas sob a égide do surreal.  

Ambos trajados à moda dos anos quarenta, causa estranheza o rosto de um deles fatiado em camadas como a insinuar a metáfora das subpersonalidades descoladas, e o outro, com cabeça de elefante (insinuando o panteão hinduísta talvez, seria Ganesh ?), deixando derramar um copo de leite, que se espalha pela tela. Fora os detalhes (cogumelos no drink; a capa do primeiro álbum do Pepe Bueno sobre a mesa etc). Conclusão : é estranhamente belo...

A mixagem do disco foi feita por Alberto Sabella e o próprio Pepe Bueno, com masterização a cargo de Daniel “Lanchinho”, em São Paulo. Foto por Victor Daguano.

Assinam a produção geral, junto a Pepe Bueno, Alberto Sabella e Junior Muelas.

O disco não foi lançado em versão física, no CD tradicional e Bueno justifica que tal iniciativa nos dias atuais com o CD em decadência, não faz sentindo mais. Penso igual, registre-se. Não descarta no entanto, que no futuro haja um lançamento na versão em vinil, o velho LP. Como o mercado é volátil (e estratégico enquanto capitalista), quem nos garante que o CD não tenha um revival mais para frente, também ? Registre-se, também.

Por enquanto, o negócio é ouvir a versão que o disco tem em plataformas como o Spotify e Deezer, por exemplo.

Bueno já produziu e lançou um vídeo-clip, louquíssimo por sinal, da música “O Estranho”, disponível no You Tube e Vevo.  Promete lançar um para cada canção, nos próximos meses.
Eis o clip de "O Estranho" :



Veja também o clip do Making off da gravação do álbum "Eu, o Estranho" :





Para conhecer melhor esse trabalho, procure informações na página de Marcelo “Pepe” Bueno no Facebook :
https://www.facebook.com/PepeBuenoRock 

O disco na íntegra, no Spotify : 



Contato direto com Pepe Bueno :

peperockista@gmail.com 

Eis aí mais um trabalho que eu recomendo, certamente !

Abraços e boa leitura!