Fernando Tavares

Fernando Tavares

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Artigos e Resenhas - Brian Jones, o homem que morre todo dia / Dusty Old Fingers - Por Luiz Domingues

Olá pessoal!
Nesta semana temos mais um artigo especial do amigo Luiz Domingues, falando sobre a banda Dusty Old Fingers e uma Opera Rock em homenagem ao ex-guitarrista do Rolling Stone, Brian Jones. Só para lembrá-los que esta é uma coluna em que coloco artigos e matérias escritas por profissionais gabaritados e que serão úteis para os estudantes e apreciadores de música. 
Esta resenha e outras matérias maravilhosas podem ser encontradas nos blogs do Luiz. Segue abaixo o link deste artigo e os links dos blogs.


Um breve release do Luiz feito pelo próprio:
Sou músico e escrevo matérias para diversos Blogs. Aqui neste Blog particular, reúno minha produção geral e divulgo minhas atividades musicais. Como músico, iniciei minha carreira em 1976, tendo tocado em diversas bandas. Atualmente, estou atuando com Os Kurandeiros.

Então vamos a resenha:

Brian Jones, o homem que morre todo dia / Dusty Old Fingers - Por Luiz Domingues


Eu sabia há muito tempo que o jornalista Tony Monteiro era um ótimo guitarrista, pois o conheço desde os anos oitenta e acompanhei seus esforços para se aprimorar ao instrumento. Profissional exemplar no jornalismo musical, era do staff das revistas Roll e Metal, naquela época, e seu texto sempre foi de primeira qualidade.
Reconhecia em seu estilo jornalístico, a similaridade com a crítica musical escrita em veículos da década de setenta, tais como a "Rolling Stone brasileira" e a "Rock, a História e a Glória", onde as grandes feras do jornalismo musical escreviam e fizeram história.
Conheço muitos jornalistas que tocam e considero isso normal, pois a paixão pela música quase que naturalmente os impele para tal. Vendo pelo lado prático, um crítico musical que toca algum instrumento só pode enriquecer a sua escrita, pois mergulha nos meandros da música e naturalmente passa a ter outra visão.
No caso do Tony, no entanto, isso foi além, pois recordo-me bem que já naquela década, era estudioso, e fazia aulas com um guitarrista muito preparado, técnica e teoricamente, levando a sério seus esforços para tocar bem, denotando que não estava esmerando-se só por hobby, ou para enriquecer seus conhecimentos musicais, visando abrir novos horizontes na sua visão sobre a música.



Muitos anos depois, soube que montara uma banda tributo aos Rolling Stones e regularmente via anúncios de suas apresentações pelas casas noturnas de Campinas e cidades vizinhas.
Foi com muito prazer que soube que havia montado uma banda autoral chamada "Dusty Old Fingers", e que lançara um CD, com uma ideia muito bem vinda : um tributo ao mítico guitarrista dos Rolling Stones, Brian Jones, na forma de uma Ópera Rock !


Em "The Man Who Died Everyday", o libreto que criaram conta a vida, obra e morte de Brian Jones, com a exaltação de muitos pontos chave de sua biografia, usando de poesia e referências musicais explícitas para exaltá-las.

O menino que sabia tocar muitos instrumentos, tinha cara de anjo, mas também era irascível; gênio & genioso, intenso e marcante numa década pontuada por tantos talentos, capaz de ofuscar Jagger & Richards...
Brian Jones segundo os biógrafos, foi o catalisador dos Rolling Stones. Foi dele a iniciativa de fundar a banda e dele a escolha dos demais membros. Genial como compositor, multi-instrumentista e performático, chamava a atenção para si com um carisma incontestável. Muitos biógrafos cravam a ideia de que sua genialidade incomodava Mick Jagger & Keith Richards. Charlie Watts e Bill Wyman pareciam não se importar, mas os "Glimmer Twins", supostamente, sim.


Jones mergulhara forte na experiência psicodélica das drogas e chegou num ponto onde ficou difícil permanecer na banda. Já em 1968, dava sinais públicos de que seu estado de saúde não era dos melhores, por conta dos abusos.Contudo, é muito nebulosa a sua saída oficial da banda. Richards passou a namorar Anita Pallemberg, ex de Brian, e isso parece ter azedado de vez a relação entre ambos.
Já tomadas as providências para substituí-lo e com show marcado para a estreia de seu substituto, o guitarrista Mick Taylor, em julho de 1969, estoura a notícia de que Jones estava morto, tendo sido encontrado afogado na piscina de sua mansão. 


Essa morte em princípio foi creditada ao seu estado catatônico. Não suicidara-se, mas simplesmente caíra na piscina sem consciência de seus atos, por conta do abuso no uso de drogas alucinógenas. A polícia trabalhou também com a hipótese de assassinato, surgindo um suspeito : um funcionário da manutenção da residência que o empurrara na piscina por motivo torpe. Mas nunca surgiu uma prova incisiva e esse rapaz saiu ileso dessa acusação.
Muitos anos depois no entanto, o rapaz já envelhecido e doente, no seu leito de morte chamou testemunhas e assinou, no seu último ato em vida, a confissão de que sim, assassinara Jones por vingança, num momento de muita raiva, cansado de ser humilhado pelo seu patrão que supostamente o tratava com desdém.
Mesmo com uma confissão formal, essa história ainda sucinta muita controvérsia e nas acaloradas rodas de conversas entre rockers, as opiniões se dividem, com muitos encerrando a questão sobre o tal caseiro ter sido o assassino e outros que suspeitam que ele fora um mero bode expiatório, pago pelo verdadeiro assassino ou pelo mandante do crime.
Verdade ou mentira, o fato é que quando Brian Jones foi encontrado boiando naquela piscina, o Rock começou a morrer junto. Dali em diante, mais três ícones sessentistas que tinham a letra "J" no seu nome, lhe fizeram companhia na tragédia : Jimi Hendrix e Janis Joplin (1970) e Jim Morrison (1971).

Na Ópera Rock composta pelo Dusty Od Fingers, tem momentos muito interessantes para refletir sobre a biografia de Brian Jones.


Logo na primeira faixa, "My Best Enemy", a harmônica nos leva ao Blues, onde tudo começou para Brian Jones. Sua paixão pelo ritmo norte-americano e como isso deu o starting para os Rolling Stones começarem sua carreira de sucesso retumbante. Ali se canta : "I discovered James and Johnson / I discovered I could live my way"...
"The World at my Feet", cujo título já diz tudo, mostra Brian genial, confiante no seu taco e pronto para se tornar um Rock Star, como de fato aconteceu.
Em "Blond Hair, Baby Face", numa bela balada de pegada R'n'B, o deslumbramento das fãs descabeladas que se esgoelavam nas primeiras fileiras dos shows. Ele era um gênio e chamava a atenção pela sua "Baby Face", sem dúvida alguma.
Uma de minhas prediletas é "Librae Solidi Denarii", que conta como a experiência psicodélica fez Jones mergulhar de cabeça nas drogas. A levada lembra-me bastante Frank Zappa e as referências psicodélicas são muitas. Muito boa música mesmo, e para um fanático pelos sixties como sou, assumidamente, é um devaneio. 
"Everything That I Want" fala sobre o talento de Brian. O cara que tirava som de qualquer instrumento, com uma percepção musical extraordinária.
"Lost Eyes" é outra faixa excelente. Lembrou-me bastante o Black Crowes, em sua parte A, com pura evocação retrô de muita qualidade. Na letra, Brian começa a perder o controle de sua vida e tudo vai dissipando-se, como um sonho...
"Dirty Hands" é um blues de respeito. Muito bom o riff inicial e melodia, contando a passagem onde uma batida policial feita na sua residência, resultou num processo sobre o porte de drogas.
"Going to Hell" é uma bela balada e na letra, fala sobre a revolta interna de Jones, vendo sua vida indo para o ralo, seus amigos o tratando de forma estranha e o pior estava por vir : perderia a namorada e a sua própria banda...
"A Shadow of Myself" é um desabafo de Jones, numa licença poética plausível, eu diria. O blues rústico e melancolicamente belo, embala tal lamento de um astro que perdera tudo, até a própria vida.
Fechando o álbum, "The Man Who Died Everyday" é pura poesia, falando sobre Brian Jones como o grande artista que nos faz muita falta e que deixou-nos muito precocemente. A canção é uma balada dramática com "cara de Rolling Stones", nada mais apropriado. 
Achei incrível o arranjo ao final, com o piano mantendo o tema principal, mas com uma leveza melódica e harmônica, evocando Debussy. O toque melancólico desse piano, encerrando a obra nos leva à reflexão sobre o vazio que Brian deixou para a história do Rock, ao se afogar naquela piscina, num dia de julho de 1969...

O Dusty Old Fingers é uma ótima banda, formada por Tony Monteiro (Guitarra, violão e voz); Rick Machado (Bateria e percussão); Fabiano Negri ( Vocal, guitarra e violão); Joni Leite (Baixo e Harmonica) e Marcelo Diniz (Teclados).
Alguns músicos convidados participaram da gravação do trabalho, como : Cesar Pinheiro (gravou a bateria em todas as faixas, denotando que o baterista oficial da banda, Rick Machado, ingressou depois); Paulo Gazzaneo (Piano) e Sheila Le Du (Vocal). 


A concepção das letras, muito bem escritas e com grandes sacadas sobre todos os ponto importantes da vida e obra de Brian Jones são criações do Tony Monteiro. Nesse caso, a caneta forte do jornalista top que ele é, contribuiu com o Tony artista. As canções são do vocalista/guitarrista Fabiano Negri, que revela-se um bom compositor e eclético sobretudo, pois a variedade de influências impressiona.
O baixista Joni Leite fez um trabalho de lay-out extraordinário para o encarte. No caso da capa, a concepção foi de Ben Ami Scopinho. Apesar de ser uma ideia que denota tristeza pela perda de Jones, é muito poética e forte a imagem dos membros da banda à beira da fatídica piscina, em tom de consternação.

Na parte interna, a imagem da guitarra predileta que Brian usava nos Rolling Stones (uma Vox "Teardrop"), mergulhada na piscina, diz tudo e emociona. 


O mundo mudou muito, o tempo passou, eu sei. Tirante um nicho de jovens que curtem a Era clássica do Rock e que até surpreende-nos, a grande massa nem sabe quem foi Brian Jones. 
Rolling Stones para a maioria, é uma banda de senhores idosos, liderados por Mick Jagger, que ficou famoso por ter tido um filho com uma ex-modelo brasileira e Keith Richards é um velhinho muito parecido com o Johnny Depp caracterizado de pirata do Caribe...
A única música que conhecem, é "Start me up", que consideram a mais "antiga", e "Miss You", que é dançante, e devem achar que se trata de um cover dos Bee Gees...
O que posso fazer diante de uma realidade assim, desoladora ?
Bem, é por essa e por outras que recomendo o trabalho do Dusty Old Fingers, por tratar-se de um documento muito bonito para registrar a vida e obra de um artista genial, como foi Brian Jones.
Gosto imensamente dos Rolling Stones e considero suas duas distintas fases nos anos sessenta e nos setenta, como as melhores enquanto explosão de criatividade e "desbunde", no restrito significado que tal gíria denotava naquelas duas décadas.
Na década de sessenta, com Brian na banda, não foram poucos os momentos de brilhantismo incríveis que os Stones nos legaram.
E Brian Jones era o gênio por trás disso, sem nenhum demérito aos demais componentes da banda.
Se quiser conhecer essa história a fundo, basta pesquisar na internet, nos livros e sobretudo ouvir os discos dessa fase da banda. E recomendo conhecer também o Dusty Old Fingers, com sua Ópera-Rock sobre Brian Jones, "The Man Who Died Everyday", que virou mais um documento importante para registrar a história.


Contato com a banda : 

www.dustyoldfingers.com
www.facebook.com/DustOld Fingers 

É isso aí pessoal.
Espero que curtam esta resenha do Luiz e principalmente, conheçam o trabalho desta banda.
Segue o vídeo clipe do Dusty Old Fingers no canal do youtube.


Abraços e até a próxima coluna!

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