Fernando Tavares

Fernando Tavares

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

King Crimson - Discipline


Olá pessoal!

Estamos de volta para mais uma matéria na qual falamos sobre um álbum ou um baixista. Neste mês temos as linhas de contrabaixo do álbum "Discipline" do King Crimson analisadas para os leitores do site.


    Fonte da imagem: https://images.app.goo.gl/sTMTQtrxCkGezHk47

Este álbum marca o retorno do King Crimson aos estúdios após sete anos sem lançar material inédito. A relevância da banda no cenário do Rock Progressivo é marcante, ela teve alguns álbuns clássicos como "In the Court of Crimson King", "Larks Tongues in Aspic" e "Red" lançados entre os anos de 1969 e 1974, e após uma pausa nas atividades trouxe o álbum “Discipline”, que se tornou um clássico da banda não só pela mudança na sonoridade do grupo, mas também pela criação de sons não explorados até então, tanto pelo uso de instrumentos tecnológicos para criar timbres diferentes. quanto pela execução das músicas com instrumentos inusitados. 
Outras características marcantes deste álbum são: o trabalho feito pelos guitarristas Robert Fripp e Adrian Bellew, que executam linhas de guitarra em contraponto e com a exploração de polirritmia; o baterista Bill Bruford, apresentou inovações tecnológicas para a bateria, utilizando pads com controladores, além de sua famosa habilidade para tocar em compassos alternados. 
Quanto ao que nos cabe nesta matéria, que é o trabalho do excepcional baixista Tony Levin, ele não só esteve na vanguarda nas novas formas de se tocar contrabaixo na música pop, como ajudou a difundir com este álbum a técnica de Two Handed Tapping e um instrumento pouco usual na época, o Chapman Stick de 12 cordas.

Análises


O álbum tem a duração de 42 minutos e é formado por sete faixas. 

Exemplo 1

Na primeira faixa “Elephant Talk” o groove principal da música é feito no “Stick” utilizando a técnica de Two Hands e Levin utiliza-se de muito swing nesta levada, os sons de elefante que aparecem na musica são feitos pela guitarra de Bellew. No exemplo 1 está escrito o groove principal da música, ele foi transposto para o contrabaixo de 6 cordas e nele o baixista criou a frase utilizando os intervalos de F, b3 e 6 para o acorde de Am e F, 3 e 7 para o acorde de E7, prestem atenção ao vibrato no último tempo do compasso. 


Exemplo 2

No exemplo 2 está a base do segundo solo de guitarra e ocorre por volta de 3:26. Este exemplo foi adaptado para o contrabaixo de 5 cordas e é feito utilizando a F, 5, 6 e 7 do acorde. A nota que aparece no quarto compasso funciona como uma aproximação cromática. 


Exemplo 3

Em “Frame by Frame”, Levin faz uma linha utilizando o "Stick" novamente, a base de voz desta música é feita em um compasso de 7/4. O exemplo 3 mostra o interlúdio da música e começa por volta de 0:37, retornando mais duas vezes em 2:12 e 3:49. Ele foi transposto para contrabaixo de 5 cordas e é construído com diversos “slides” e com as semicolcheias no último tempo de cada compasso soando quase percutidas devido a alta velocidade da frase. Este trecho apresenta uma característica harmônica muito presente nas musicas do King Crimson, que é a harmonia modal, a frase esta em C#m e se repete 1½ tom para frente em Em, mais 1½ tom em Gm e depois ½ tom em G#m.


Exemplo 4

Em “Matte Kudasai”, Levin utiliza um contrabaixo de 4 cordas e constrói uma levada bem simples. O interessante desta linha é o acento no tempo fraco e em tercina de semínima. No último tempo é feita uma passagem com a F, 2, 2# (blue note) e 3 do acorde. 


Exemplo 5

A faixa “Indiscipline” é mais uma gravada com o Stick. A frase principal, apresentada no exemplo 5, está no compasso 4/4 e não apresenta maiores dificuldades, sendo que o grande problema desta ideia se apresenta no refrão da música, quando a rítmica desta primeira frases é feita com a mão direita utilizando a F e a 3 do acorde de A, enquanto a mão esquerda faz uma linha em 5/4, esta linha é apresentada no exemplo 6, ou seja, Levin faz uma linha em polirritmia com ele mesmo. Vejam a linha completa no exemplo 7 e reparem que a nota forte (Lá, 12ª casa da corda Lá) só cai no primeiro tempo quando é tocada no primeiro compasso. 


Exemplo 6


Exemplo 7


Exemplo 8

Em “Thela Hun Ginjeet” a base para a linha vocal é feita com a técnica de Slap (exemplo 8). Foi usada a F, 4 e 7 para a construção da frase, também são usados dois ligados cromáticos, um ascendente e outro descendente para estas notas. No segundo tempo existem dois abafados, um no Thumb e outro no Plucked. Por fim, no quarto tempo do último compasso existe uma aproximação cromática para a fundamental do acorde.


Exemplo 9

“The Sheltering Sky” é, em termos técnicos para o contrabaixo, a música mais simples do álbum. Ela é feita utilizando a fundamental de cada acorde, só fiquem atentos para os contratempos utilizados pelo baixista na construção da linha. Ela foi transposta para contrabaixo de 4 cordas, mas quem possuir um contrabaixo de 5, procure tocar o dó sustenido uma oitava abaixo.


Exemplo 10

A última faixa do álbum, “Discipline”, é a música mais difícil de se executar no contrabaixo. No exemplo 10 temos a linha de contrabaixo na primeira pauta e a linha principal de guitarra, transposta para contrabaixo, na segunda pauta para entendermos melhor a construção desta linha. 
Enquanto a base da música é feita com um compasso em 5/4, a linha de Levin é feita utilizando a técnica de two hands em um compasso de 9/16 (vejam que a segunda passagem da frase começa no contratempo do terceiro tempo do compasso 2). As notas utilizadas para a construção da frase foram retiradas da escala Blues de Lá menor, que é uma pentatônica com a blue note #4 (D#), sendo que esta nota é usada como passagem no meio da frase. O ideal é estudar a frase até decorá-la e depois tentar tocar junto com a música.


Este disco mudou o conceito sonoro de várias bandas nos anos posteriores ao seu lançamento, influenciando bandas como Primus e Dream Theater, entre outras. Ele apresentou novos instrumentos e novos sons e além de tudo é executado por quatro músicos geniais com larga experiência musical. Realmente é um clássico que só poderia ser feito por uma banda com anos de estrada. Ela manteve o alto padrão de qualidade da década de 70 e flertou com várias vertentes da música como o Rock Progressivo, a New Wave, o Pop, entre outras e ainda criou uma identidade sonora que acompanha o King Crimson até os dias atuais.

Esta matéria é gratuita e fica disponível no ambiente virtual para os alunos do meu curso de contrabaixo, teoria, harmonia e análise.
Para informações sobre as aulas, entre em contato pelo e-mail femtavares@gmail.com ou pelas redes sociais.

Abraços e bons estudos!

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