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sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Artigos & Resenhas - Os Subterrâneos / EP Subterrâneos - Por Luiz Domingues


Olá pessoal! 

Nesta semana temos mais uma coluna Artigos & Resenhas do nosso amigo Luiz Domingues. A nossa ideia com esta coluna é sempre deixar em evidência trabalhos de bandas autorais que estão fora do mainstream. Leiam o texto do Luiz, mas não deixem de fazer o mais importante que é curtir o som da banda apresentada aqui. 
Dessa vez o sensacional Luiz nos fala sobre o EP "Subterrâneos" da banda Os Subterrâneos.

A matéria original pode ser encontrada neste link.

Lembrando que o nosso amigo possui três blogs diferentes que estão nos links abaixo.

Um breve release do Luiz feito pelo próprio:

Sou músico e escrevo matérias para diversos Blogs. Aqui neste Blog particular, reúno minha produção geral e divulgo minhas atividades musicais. Como músico, iniciei minha carreira em 1976, tendo tocado em diversas bandas. Atualmente, estou atuando com Os Kurandeiros.

Sem mais, vamos ao texto do Luiz:


Os Subterrâneos / EP Subterrâneos - Por Luiz Domingues


É inacreditável, eu sei, mas em pleno 2017, com quase todo mundo a destilar lamúrias pelas redes sociais, em tom de crítica pela anti música que ocupa o mainstream (e na contrapartida não haver espaço algum para artistas do underground), nos confins da zona leste de São Paulo, uma turma jovem, ultra dinâmica e entusiasmada, vai nadando contra a maré do baixo astral generalizado e alheia ao “mimimi” dos perdedores (e por quê não, dos perdidos, também...), está a produzir uma música profundamente influenciada pelos anos 1960, resgatando inúmeros aspectos revolucionários daquela década memorável. É uma turma boa que produz shows; festivais, não quer nem saber de crise e sem “frescuras”, produz seu agito contracultural onde houver espaço, e nem importa-se se não tem infraestrutura adequada, por que se não houver, eles mobilizam-se e fazem acontecer. Só por tal mentalidade, já merecem todo o enaltecimento, mas não fica só nessa boa vontade extrema, pois trata-se de um celeiro de artistas talentosos, que tem o que dizer, portanto, agregue-se tal valor. E entre esses rapazes obstinados, muitos tem duas, três ou mais bandas mantidas em simultaneidade, e todos os amigos dessa fraternidade interagem, nem que seja em participações uns nos discos dos outros.

Hoje, quero tratar de mais uma banda dessa cena (já abordei o Capitão Bourbon, anteriormente), chamada “Os Subterrâneos”. Banda profundamente influenciada por bandas de garagem dos anos sessenta, não necessariamente famosas e daí, realça-se a extrema originalidade dessa banda em buscar sonoridades perdidas no tempo e no espaço, sendo que em realidade, tal estética jamais poderia ter sido obscurecida, nem mesmo pela ação do tempo. Contudo, muita coisa aconteceu na história do Rock e até o vilipêndio usado como arma / ação de marketing, tratou de obscurecer tal corrente histórica e agora, uma banda como Os Subterrâneos está fazendo o trabalho arqueológico e ao mesmo tempo mágico em reatar o fio da meada perdido, ou seja, o “religare” no Rock, um fato que Rockers genuínos aos quais incluo-me, sonham em ver acontecer, há décadas.


Os Subterrâneos tem em sua formação como quarteto, os seguintes membros : Eduardo Osmedio (Guitarra / Voz); Ronnie Pedroso (Órgão / Gaita / Guitarra e Voz); Guilherme Torquato (Baixo) e Rogério Antônio (Bateria e Voz). Seu EP, chamado “Subterrâneos”, foi lançado em 2017, contendo quatro faixas. A sonoridade da banda, em termos de áudio, soa bastante rústica, parecendo de fato um bootleg concebido em poucos canais, sob a égide do mundo antigo das gravações (leia-se analógico), e isso é sensacional enquanto fidedignidade às influências que eles seguem, com dedicação. Até a foto da banda na capa do álbum, com os rapazes trajados como se estivessem em 1966, em meio ao “fog” de Londres, é incrível. E fica ainda mais interessante se levarmos em conta que são paulistanos da zona leste e que estão fazendo isso em 2017...

Sobre as quatro faixas, ouvi-las no headphone é um mergulho direto aos “sixties”, uma viagem no Túnel do Tempo, quiçá na companhia de Anthony Newman e Douglas Phillips, absorto em cambalhotas num Kaleidoscópio psicodélico e muito louco.


A primeira faixa, “Ruas de Soweto”, tem um som de órgão hipnótico. É aquele timbre agudo e maravilhoso desses teclados tipicamente sessentistas como os órgãos Voz e Farfisa, inigualáveis pela suas respectivas características no tocante aos timbres. Gostei muito dos backing vocals ao fundo, quase sombrios, repetindo frases proferidas pela voz principal e lembrando muito diversos artistas egressos da Jovem Guarda e estes por sua vez, que beberam forte no Pop francês e italiano, principalmente, naquela década.  Muito boa uma parte desdobrada em compasso 3/4, insinuando uma valsa lisérgica. Gostei também do solo de guitarra e o timbre do baixo, quase sem sustain, com aquele timbre anasalado, também muito usado naquela época.

“Borboleta Branca” é a segunda canção e apresenta-se com forte orientação do Acid Rock sessentista. Nessa faixa, um músico convidado tocou guitarra, Jun Santos. A letra investe forte na loucura psicodélica, buscando imagens surreais. Eis um trecho :

"Era uma borboleta voando mais branca que a neve
sobrevoava o jardim colorido a procura das tulipas negras"...

A terceira faixa, “Dia Lindo”, tem em sua parte inicial uma divisão rítmica fragmentada, sob compasso 2/4, muito interessante. Convenções duras ocorrem em diversos trechos trazendo um peso incrível. Tem muito do som da pouco conhecida banda sessentista americana, “The Music Machine” (aliás, uma influência confessa dos rapazes). Gostei do solo de guitarra executado pelo artista convidado, Uly Nogueira, outro músico com forte participação nessa cena, tocando em várias bandas irmãs e também produzindo e ofertando apoio como ilustrador de capas de discos e cartazes de shows a evocar a psicodelia sessentista, sendo um talento impressionante. E não obstante ser um baterista ótimo em outras bandas, aqui contribuiu com um belo solo de guitarra ao pisar no “Fuzz”, sem parcimônia.

“Jardim Psicodélico” fecha o EP e não pude deixar de enxergar o “Iron Butterfly” a flutuar fortemente como influência ótima para os rapazes. Trata-se de uma viagem psicodélica, uma autêntica good trip. Ouvir essa faixa de olhos fechados pode levá-lo diretamente aos bastidores do Auditório Fillmore West, em algum momento de 1967, quando em meio a tal epifania, a vontade de não voltar para a realidade do século XXI em curso, será imensa, tenha essa certeza. Gostei muito da condução da bateria, evoluindo com bastante criatividade nos tambores, e também do solo de guitarra, muito bonito. A letra investiu forte no surrealismo explícito, na melhor tradição dos ditos, lindos sonhos delirantes.

"acordei, mas ainda estava a sonhar
encontrei o jardim psicodélico dos sonhos meus"...

O disco foi gravado no estúdio “Corações de Pedra”, em São Paulo. Jonas Morbach foi o técnico da captura de gravação e mixagem / masterização. Foto e arte da capa a cargo de Fernanda Heitzman (um trabalho muito bom da parte dela, por sinal).

Em postagens que vejo pelas Redes Sociais a anunciar seus shows, percebo que gostam de brincar com o fato de que são da zona leste de São Paulo, referindo-se a ela como “Zona Lost”, numa alusão ao seriado de TV que fez sucesso, anos atrás. Mas creio que esses artistas na verdade não perderam nada, mas ao contrário, estão achando um caminho muito interessante a resgatar raízes remotas do Rock, ou seja, fazem um trabalho notável.

Recomendo o bom trabalho dos Subterrâneos, tanto acompanhando-os ao vivo aonde quer que estejam, quanto pela audição de seu EP, aqui analisado. E que venham mais trabalhos nessas características. Viva a psicodelia sessentista !

Ouça o EP, abaixo : 


Escute o álbum na íntegra, através da sua postagem de You Tube:

Também disponível no spotify:



Para saber mais informações sobre a banda, acesse sua página na Rede Social Facebook:

É isso aí!
Espero que gostem desta resenha e o principal, conheçam o som bem legal desta banda.
Abraços e até a próxima!

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Artigos & Resenhas - Que Seja Infinito Enquanto Vivo / Klatu - Por Luiz Domingues


Olá pessoal! 

Estamos de volta com mais uma coluna Artigos e Resenhas aqui no nosso site. Dessa vez o sensacional Luiz Domingues nos fala sobre o álbum "Que seja infinito enquanto vivo" da banda Klatu. 

A matéria original pode ser encontrada neste link.


Lembrando que o nosso amigo possui três blogs diferentes que estão nos links abaixo.

Um breve release do Luiz feito pelo próprio:

Sou músico e escrevo matérias para diversos Blogs. Aqui neste Blog particular, reúno minha produção geral e divulgo minhas atividades musicais. Como músico, iniciei minha carreira em 1976, tendo tocado em diversas bandas. Atualmente, estou atuando com Os Kurandeiros.

Sem mais, vamos ao texto do Luiz:

Que Seja Infinito Enquanto Vivo / Klatu - Por Luiz Domingues


O Klatu é uma banda de muitos predicados, isso é inegável. Já tive a oportunidade de elencar suas qualidades artísticas, em matéria escrita tempos atrás neste meu Blog 1, quando estabeleci uma resenha "mezzo" biográfica dessa banda, falando de seus discos até então lançados (“Em Busca do Rock Infinito”, de 2008 e “Um Pouco Mais Desse Infinito”, de 2013”), além de sua trajetória em torno desse conceito contínuo do mote sobre o “infinito”. Pois agora, 2017, o Klatu lança o terceiro álbum e fecha a sua trilogia temática, mostrando-nos “Que Seja Infinito Enquanto Vivo”. Antes de avançar na resenha cabe ressaltar que não trata-se de um álbum ao vivo, como talvez o leitor possa ser sugestionado a deduzir pelo seu título. É “vivo” no sentido do antônimo de “morto”, embora no âmago da obra, a ideia seja fazer a opção pelo meio termo entre as duas condições, falando do dito zumbi, o “morto-vivo”. Contudo, não em sentido fantasmagórico, evocando a literatura clássica do terror, mas usando e abusando da metáfora do zumbi no intuito de criticar os rumos atuais da sociedade moderna e suas múltiplas formas de condicionamento e manipulação da parte das ditas “forças ocultas”, que aliás, nem tão ocultas o são na atualidade.

Para início de conversa, o Klatu assume que esse seu terceiro disco é uma “Opera Rock”, fechada num tema único e com suas canções seguindo o libreto de uma história. Não é para qualquer um aventurar-se num conceito mais ambicioso desse porte, mas o Klatu amadureceu muito, e banca-se nessa ousada iniciativa, pelo que ouvi e li no decorrer do novo disco. E para provar o que digo, já menciono um dado criativo ao extremo em se considerando tratar-se de uma obra temática : apesar dessa estrutura, o Klatu quebra o protocolo e no libreto, não há personagens estabelecidos. Trata-se da história de um homem, e a pergunta é inevitável : que homem ? Pois é, uma espécie de “alma mater” onde cada ouvinte / leitor pode identificar-se a vontade e até vestir sua armadura ou carapuça, como queira. Essa representação da humanidade canta o que sente e vê, e nesse aspecto, o que enxerga é sombrio, falando de uma sociedade que oprime e esmaga as individualidades; desdenha dos sonhos, e oferta apenas o pesadelo como opção concreta. Para sair dessa, só morrendo ou tendo um absoluto lampejo de loucura e arrojo ao romper com tudo. O cerne da questão é esse, a extrema manipulação e entenda o óbvio, ou seja, a massificação bovina a serviço de uns poucos interessados em que a sociedade permaneça nesse estado de coisas. O clamor em si não é uma novidade, mas a maneira artística pela qual o Klatu expôs tal conceito, aí sim, é bastante criativo. Nada é mais significativo para ilustrar o filme de zumbis em que vivemos no cotidiano, do que verificarmos pessoas nas ruas, absortas pela ação hipnótica de seus “smartphones” e é por aí que o Klatu critica fortemente a ação dos marqueteiros; “formadores de opinião”, governos e mídia, e nessa lógica, parece que a internet, que na prática deveria ser livre, acaba por tornar-se mais uma arma de manipulação sórdida. A quem devo apoiar agora ? Vou bater minha panelinha na varanda gourmet do meu apartamento a favor de A ou B ? Tanto faz, pois você já "dançou" só por ter obedecido a ordem para ser um "percussionista útil", digamos assim...

O núcleo ativo do Klatu : Leco Peres & Carol Arantes

Sobre a obra em si, o amadurecimento do Klatu também mostra-se concreto. O dois discos anteriores são ótimos, mas neste terceiro, é nítida a firmeza adquirida, com o benefício da experiência acumulada. Agora assumido como um duo, através do casal Leco Peres (baixo; voz e percussão), e Carol Arantes (voz e percussão), o Klatu recrutou músicos de apoio de alto nível e o resultado sonoro impressiona pela qualidade. Todas as faixas tem um apontamento sobre o desencadeamento da história contada, mas é muito sutil, a expressar um sentimento, tão somente. 


Na primeira faixa, o conceito do “espaço / tempo” , anuncia a canção denominada “Sobrevivendo”. Tema instrumental e curto, tem a função clara de ser uma “Overture”, típico recurso da tradição das óperas convencionais, e também usado em diversas “Óperas-Rock” famosas nos anos 1960 / 1970 (“Tommy”; “Quadrophenia”; “Victoria”; “Jesus Christ Superstar” etc). Com uma intervenção forte de bateria em ritmo tribal e teclados com timbres modernos, lembra algo Techno com remota raiz no “Krautrock” dos anos setenta. A destacar-se, um riff forte de orientação Hard Rock e um solo de guitarra sucinto, mas de arrepiar.

“A ameaça” claramente denota o personagem em momento de alerta ao deparar-se com a realidade perigosa em que cerca-se. A canção chama-se “Terra de Zumbi” e claro, a alusão dá-se pelos milhões de seres controlados pelas corporações que norteiam a sociedade massacrante e trata-nos como meros códigos de barras ambulantes e “consumidores” de alguma coisa, para o benefício deles, exclusivamente. Com clima de balada, lembra o Pink Floyd em alguns aspectos. Gosto das delicadas tessituras harmônicas realizadas pelas guitarras e com detalhes bem bacanas, entre os quais o uso de caixa Leslie, sempre agradabilíssima. Gostei muito de um riff mais pesado, lembrando bastante a maneira pela qual o Jethro Tull expressava volúpia ao passar da docilidade Folk para o Hard Rock. Acho que o Klatu acertou nessa transição também. 
Na letra, Carol escreveu versos fortes. Destaco:

“Marionetes, manipulados,
 sorrisos falsos, desesperados, 
morrendo todos os dias sem perceber”...    

Chega a terceira canção e o momento da história é o da “epifania”. Hora de sonhar livremente e assim, a canção “Livre Sonho Deszumbizante” é quase uma súplica, de quem tomou consciência do massacre externo e clama por liberdade. Impossível não notar que exista uma intenção em estabelecer um acróstico nesse título e isso remete aos anos sessenta em múltiplos exemplos (“Lucy in the Sky With Diamonds”; “Lindo Sonho Delirante” etc), portanto, drogas a parte, saudade do tempo em que muita gente mostrava-se interessada em empreender esforços em prol do dito “Open Mind / Mind Expansion” e no caso, o personagem tem essa epifania atualmente, ou seja numa época muitíssimo mais hostil e fechada para tais ideais. A canção é boa, tem um swing meio “sixties” no formato da sua parte A, embora predominem timbres modernos e não haja a preocupação de soar “retrô” deliberadamente. O final da música tem uma clara influência do Rock Progressivo setentista, e ouso dizer, reveste-se de uma aura do Gentle Giant. Ao cantar: 

"Esse sonho é um pouco mais que real 
e o caminho é interdimensional
 retomar aquele velho ideal
do acorde gravitacional”, traduz bem a epifania proposta.

Na quarta faixa, uma crítica interessante. Sabe aquele sujeito bem intencionado, mas que no fundo está tão equivocado quanto o ardiloso que sabe o que está fazendo ? Pois é, tem muita gente nessa condição, nadando a favor da maré imposta, todavia, achando que tem senso crítico e consciência; independência de ideias etc e tal, mas na verdade está na vala comum dos manipuláveis, aquele tipo de ser humano “bonzinho” que vai às ruas para clamar pela moralidade na política, mas usando uma camiseta com o distintivo de uma das instituições mais corruptas do planeta, porém, lógico, é um inocente e nem sabe disso na prática... na letra, isso é explícito: 

"e de repente eu me deparo
um coletivo muito legal
parecem certos, inteligentes
são os melhores para nos salvar”... 

Nessa canção, chamada “Volta à Terceira Dimensão”, a ideia lançada é a do “conflito”, ou seja, o choque do personagem após a epifania da faixa anterior, ao deparar-se com a dura realidade telúrica. Mais uma vez senti influência forte do Krautrock setentista logo no início, e doses maciças de Rock Progressivo, novamente evocando o Gentle Giant e o Jethro Tull. São partes mais pesadas, com um pé no Hard Rock. Parecem aqueles interlúdios mais vigorosos dentro de obras como “Three Friends” e “Thick as a Brick”. E tem também uma menção ao Jazz, com o baixo fazendo um andante clássico do gênero ao seu final.

“A coligação” é o clima da quinta faixa, denominada “Zumbis do Bem”. Sim, existem os que tentam debelar-se, porém inevitavelmente fecham-se em “clubinhos” iniciáticos; exclusivos etc etc. Na prática, pensam estar ajudando, mas com esse tipo de mentalidade, mais são desagregadores. Uma pena. Na sonoridade, essa canção remeteu-me ao som dos artistas da chamada “Vanguarda Paulista” do início dos anos 1980. Com brasilidade e atitudes jazzísticas proeminentes, a canção traz harmonia com dissonâncias e quebradeira rítmica generalizada, lembrando o som de Itamar Assumpção & Isca de Polícia; Arrigo Barnabé e sobretudo o Grupo Rumo, ainda mais em associando-se a voz de Carol Arantes com Ná Ozetti; Suzana Sales e / ou Vânia Bastos. 

O momento é de “reação” e a canção “Antes Só”, mostra a tomada de consciência do personagem, levando-o a fazer crer que o negócio é contar com suas próprias forças. Dura realidade, eu sei, mas se chegamos nesse ponto, o negócio é lembrar do Paulo Vanzolini, isto é : não chore, mas levante; sacuda a poeira, e dê a volta por cima... 
Mais uma vez o Klatu recorre à um riff com ritmo todo quebrado, mostrando sofisticação na composição e uma parte mais pesada que lembrou-me o Bachman Turner Overdrive, porque traz o elemento Pop também, marca registrada daquela boa banda canadense.
O personagem, através da voz de Carol Arantes dá o recado quando diz: “ prefiro seguir sozinho do que não me mover”. Muito bom, apesar dos pesares, ainda tem um pingo de humanidade dentro desse combalido zumbi pós moderno.

“O vislumbre” é o sentimento e o nome da canção, “Hora de Acordar”. Aqui, o recado é instrumental e trata-se de um tema versado pelo Jazz-Rock setentista, bem naquela ideia da pegada Rocker x swing da Black Music. Parece música de um disco qualquer do “Return to Forever”, impressiona pela técnica e balanço. 

Hora de dar nome aos bois, o grande “Leviatã Pererê” é a canção sob a égide da “repressão”.  -“Perseguir sonhos é um desacato a quem quer poder”, diz um verso da letra. Isso mesmo, quem ousa não seguir o padrão imposto, incomoda o sistema. Nessa canção, os ecos de uma MPB hippie dos anos setenta são nítidos. A psicodelia nordestina é representada fortemente e tem um sabor poético dos Secos & Molhados também. Aquele tempo bom onde ligava-se o rádio e havia boa música tocando regularmente...

Um libelo é dado através de “Acorde aos Vivos” e no libreto é a hora da “esperança”. Ufa, então nem tudo está perdido ? O pesadelo da ultra manipulação ainda dá brecha para ser revertido ? Não vivemos integralmente o Big Brother de George Orwell, mas ainda dá tempo de expurgar o BBB da mediocridade televisiva ? Que alívio ! O som é dos mais agradáveis nessa canção, lembrando o Rock’n Roll cockney e cru do Slade, direto e reto no começo da canção. Depois tem interlúdios que lembram o Tutti Frutti dos bons tempos e tal reminiscência boa reforça-se quando ouve-se os backing vocals cheios de “uh uhs” afinados e doces, remetendo aos gêmeos vocalistas, Rubens & Beto Nardo. E por fim, uma dose de sofisticação ao mostrar um looping rumando ao “infinito”, bem ao estilo do Gentle Giant. É belo e grandioso.

Carol Arantes & Leco Peres em click de Andreia Justino

Chegamos ao final da obra e uma surpresa dupla : não tem final feliz, mas espaço aberto para o ouvinte fazer sua análise pessoal a vontade, com o tema “lugar-comum”. O Klatu deixa o recado para que você analise e chegue à sua própria conclusão. O que fazer da sua vida depois de tomar conhecimento dos fatos expostos ? Vai deixar-se levar em ser um zumbi sem face na multidão, ou vai “deszumbizar” ? E a segunda surpresa da canção que chama-se “Vida Modesta e Fecunda’, é que trata-se de um tema instrumental, com característica acústica, usando apenas violão; percussão leve e ruídos silvestres ocasionais. E a voz, apenas onomatopaica, entoa um vocalise numa canção sem letra, apenas transmitindo sentimento, sem mensagens explícitas.

A concepção geral, produção artística e material, ficou a cargo do casal que comanda o Klatu, Leco Peres e Carol Arantes. A produção musical de estúdio sob a supervisão de Daniel Iasbeck. Gravado no estúdio Lab Mancini entre o final de 2014 e 2016, de São Paulo. Canções de Leco Peres (tem uma em parceria com Daniel Iasbeck), e letras de Carol Arantes. Técnico de gravação; mixagem e masterização : Raphael Mancini. Diagramação do encarte : Leandro TG Mendes.


A capa merece uma citação a parte, obra de Adriano Ticiano (criação e lay-out final), mostra uma espécie de robot enferrujado em meio à uma paisagem ultra urbana, deveras rude, e no uso de seu indefectível telefone celular, a grande coleira a favor dos que abduzem-nos. Abertamente inspirado nas obras de Tarsila do Amaral , “Abaporu” (1928) e “Os Operários” (1933), além do britânico Derek Riggs, trata-se de uma bela ilustração e que chama a atenção, sem dúvida. É soturna, mas é perfeita para ilustrar o tema proposto pela banda nesse álbum.  


Ouça acima a faixa de abertura do álbum, "Sobrevivendo"


Acima, um "teaser" anunciando o lançamento do álbum do Klatu, "Que Seja Infinito Enquanto Vivo"

Leco Peres mostrou linhas ousadas e com belos timbres de baixo. Carol Arantes na voz e na criação das letras, mostrando muita contundência e crítica ácida, porém bem embasada e firme em suas convicções. Apoiando o Klatu, Daniel Iasbeck além da produção musical, tocou todas as guitarras, violões e teclados. Sua atuação é brilhante, mostrando virtuosismo e muita criatividade nos instrumentos que tocou, além de colaborar também com vocais. Sérgio Marchezoni tocou uma bateria muito precisa em todas as faixas (exceto na última, acústica) e demonstrou muita técnica.
No áudio, o disco mostra-se bem moderno, pela pressão sonora, uso de recursos tecnológicos atuais e timbres.

No cômputo geral, “Que Seja Infinito Enquanto Vivo”, revela-se uma obra coerente com sua proposta; forte enquanto manifesto de uma causa, e muito rica musicalmente, com diversas nuances admiráveis. A banda disponibiliza as suas páginas no Facebook e You Tube, para o leitor obter informações gerais e links para ouvir o trabalho gratuitamente em plataformas musicais como o Spotify, por exemplo.

No Facebook :

No You Tube :
https://www.youtube.com/bandaklatu

É isso aí!
Espero que gostem desta resenha e o principal, conheçam o som bem legal desta banda.
Abraços e até a próxima!

sexta-feira, 16 de março de 2018

Artigos e Resenhas - Klatu, Além do Infinito - Por Luiz Domingues


Olá pessoal!
Nesta semana temos mais um artigo especial do amigo Luiz Domingues. Só para lembrá-los que esta é uma coluna em que coloco artigos e matérias escritas por profissionais gabaritados e que serão úteis para os estudantes e apreciadores de música. 
Esta resenha e outras matérias maravilhosas podem ser encontradas nos blogs do Luiz. Segue abaixo o link deste artigo e os links dos blogs.
http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2014/01/klatu-alem-do-infinito-por-luiz.html


Um breve release do Luiz feito pelo próprio:
Sou músico e escrevo matérias para diversos Blogs. Aqui neste Blog particular, reúno minha produção geral e divulgo minhas atividades musicais. Como músico, iniciei minha carreira em 1976, tendo tocado em diversas bandas. Atualmente, estou atuando com Os Kurandeiros.

Então vamos a resenha:


Em 1951, um extraordinário filme de estilo Sci-Fi foi lançado, pelo diretor Robert Wise, mas ao contrário da imensa maioria de seus pares, não tinha em seu roteiro a típica mentalidade americana de sentir-se em alerta permanente contra ataques e invasões de alienígenas hostis, com planos de domínio e/ou aniquilação. "The Day the Earth Stood Still" ("O Dia em que a Terra Parou") mostrava a chegada de um alienígena chamado "Klaatu", numa missão de paz, ainda que na sua pauta, tivesse a dura e realista advertência para que os humanos parassem de se destruir com armas cada vez mais devastadoras. A mensagem de paz e protesto à guerra fria e sua inerente paranoia nuclear, tornou o filme um clássico do gênero.


Muitos anos se passaram e após a explosão Beat, a contracultura amalgamou-se com diversos outros elementos, tornando sua diversidade, um estimulante caldo de manifestações artísticas, uma verdadeira mônada que deu todo o sentido ao Flower Power sessentista, explodindo em cores, sons, lisergia e metafísica.

Corte brusco...

Agora falo de São Paulo, comecinho dos anos noventa, época onde notei uma mudança significativa na mentalidade de uma nova safra de alunos que começou a aparecer na minha sala de aulas, quando ministrava aulas de baixo. Ao contrário do que estava habituado a lidar, com garotos aficionados de Hard-Rock e Heavy-Metal oitentistas em sua maioria, essa nova safra noventista tinha impressionante interesse pelo Rock das décadas de sessenta e setenta, e claro que facilitou demais a minha vida em todos os sentidos, pois falavam a minha língua, enfim...
Um desses jovens garotos que iniciou suas aulas comigo, logo em 1992, chamava-se Alexandre Peres Rodrigues, que ostentava o apelido de "Leco". 


Alexandre "Leco" na minha sala de aulas nos anos noventa. Emblematicamente, está no centro da foto fazendo a saudação "Klaatu Barada Nikto", do filme "The Day the Earth Stood Still", que o influenciaria muitos anos depois, ao criar sua banda "Klatu", com um "A" a menos, para não ter problemas jurídicos óbvios. Na mesma foto, Carlos Fazano de camisa lilás e Marcos Amon, usando camiseta do Corinthians.
Muito interessado na estética 60/70, demonstrava também conhecimento significativo sobre literatura e cinema Sci-Fi; Cultura HQ; e à medida que o tempo avançou, não só mergulhou de cabeça nessas ideias misturadas, como acrescentou outros ícones contraculturais análogos, enriquecendo o seu arquivo pessoal de cultura. Muito inteligente e gentil, tornou-se um entusiasta de toda a efervescência que minha sala de aulas proporcionava nos anos 1990.
Nessa época, já tinha uma banda, chamada "Eternal Diamonds", que apresentava material próprio, apesar da pouca idade de seus componentes. De sua formação, além de Alexandre no baixo, o Eternal Diamonds tinha outros talentosos membros, como Rodrigo Hid (futuro Sidharta, Patrulha do Espaço e Pedra), e Fernando Minchillo (futuro Carro Bomba). Chegaram a gravar uma demo e ter um pequeno portfolio com material de imprensa, mas a banda encerrou atividades.
Rodrigo foi tocar comigo no Sidharta, que desembocou posteriormente na Patrulha do Espaço, onde atuamos juntos por muitos anos, e a parceria prosseguiu, no Pedra. Fernando tocou no"Soulshine", banda embrião do que hoje é o "Tomada", antes de ingressar no "Carro Bomba". Alexandre, foi tocar no "Supernova"(com Carlos Fazano), uma banda de proposta ultra-sixties e posteriormente montou uma banda de Soul/Funk sessenta-setentista, chamada "Molho Inglês".
Lidando com essa sonoridade cheia de groove da Black Music, o "Molho Inglês" sedimentou as raízes de sua nova banda, denominada "Klatu" (leia de novo os primeiros parágrafos desta matéria para ter outra visão sobre o que eu falava...).


Com a clara intenção de levar adiante o Soul ultra dançante que fazia no "Molho Inglês", mas agregando outros elementos, o Klatu nasceu sob a égide da cultura Sci-Fi, daí o seu nome evocando o personagem fantástico do alienígena pacifista vivido pelo ator Michael Rennie, no filme "The Day the Earth Stood Still".
Klaatu Barada Nikto...Mr. Gort !
O primeiro álbum do Klatu chamou-se "Em Busca do Rock Infinito".




A sonoridade do disco é um convite animador para quem curte o som das décadas de sessenta e setenta, sob várias vertentes. Lisergia, sofisticação Progressiva, Black Music, experimentalismos, Riffs e solos infernais de guitarras & sintetizadores; e letras que investem forte na contestação de condicionamentos sociais detestáveis, além de uma dose de loucura, porque loucura pouca é bobagem...
Músicas como "Teoria e Prática do Rock Infinito"; "Kuarta Dimensão"; "Opus 67 in J Bemol", e "Vai Acabar", tem sofisticação instrumental, apresentando elementos de Prog Rock; Jazz-Rock; e experimentalismos muito interessantes. Nessa época, o Klatu ainda contava com o guitarrista Vicente Carrari em sua formação fixa.
"Zé Eurico" é enigmática pelo título inusitado que não explica claramente quem seja tal personagem, mas em sua letra, chama-me a atenção pelo seu caráter que evoca a expectativa de um artista plástico em relação ao seu público, diante de uma obra abstrata, ou seja, penso nisso quando ouço uma frase que considero emblemática : "Sem refrão, só por provocação, cada um pensa em sua versão"...
A música "Nunca é Tarde", chamou a atenção da cineasta Laís Bodanzsky, que a incluiu na trilha de seu filme "As Melhores Coisas do Mundo", seu longa-metragem de 2010. Com tal exposição midiática tão bacana, muitas portas se abriram para o Klatu, que só cresceu desde então.



O segundo disco "Um Pouco Mais Desse Infinito", mantém a banda nessa temática calcada na literatura Sci-Fi e a sonoridade 60/70. 


Ao contrário do primeiro álbum, que foi recheado de músicos convidados, nessa segunda obra, o Klatu centrou-se mais na sua formação fixa, com poucas participações de convidados. 
Alexandre "Leco" no baixo e vocais; Carol Arantes no vocal principal e percussão;  André Barará na guitarra e Felipe Silva na bateria.
O disco é mais direto, sem o experimentalismo todo da primeira obra, mas continua investindo em riffs setentistas fortes; groove dançante da Black Music, e letras de contestação, usando do recurso da ironia, o que lembra bem Os Mutantes e Rita Lee dos bons tempos com o Tutti-Frutti.
O nível dos instrumentistas é muito bom, as canções são boas e a temática, idem. Todo o revestimento visual da obra do Klatu tem o SCI-Fi , a lisergia pisicodélica e o Universo da HQ como motes, ou seja, é um atrativo a mais.
No primeiro disco, a capa foi assinada pelo artista plástico/músico/web designer, Diogo Oliveira, do qual sou fã incondicional pelo seu quilate artístico inquestionável.
No caso da segunda obra, recorreram à um artista igualmente talentoso e das mesmas qualificações, Fábio Gracia, também um grande músico, artista plástico e web designer.
Sob tão boas mãos, o projeto gráfico dos dois CD's ficou assegurado na evocação Sci-Fi, certamente.
Em ambos, a produção de estúdio, mixagem e masterização ficou a cargo de Renato Carneiro, que admiro e conheço bem, por ter sido o produtor dos dois primeiros discos do Pedra, e sei bem, depois de tantas horas de convívio em estúdio, ser um produtor que está além do muito competente pelos conhecimentos técnicos de áudio, mas sobretudo pelo trato humano que é sensacional, com a total liberdade artística e interação nas ideias que gentilmente cede ao artista, nas decisões.
Conheça seu som, olhando sua página no You Tube :

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O Klatu segue firme e forte, com a proposta de nos guiar ao seu Rock Infinito, e espera que você o defina como quiser, exatamente como cantam na música "Zé Eurico".

É isso aí pessoal.
Espero que curtam esta resenha do Luiz e principalmente, conheçam o trabalho desta banda.
Abraços e até a próxima coluna!