Olá, pessoal!
Nesta semana apresentamos um trabalho escrito pelo baixista Vinícius Dembicki, no qual ele analisa a linha de baixo executada por Sam Jones na gravação de “Autumn Leaves”, do álbum Somethin’ Else.
Autumn Leaves — Análise da linha de baixo de Sam Jones
Por Vinícius Dembicki
INTRODUÇÃO
“Autumn Leaves” (Les Feuilles Mortes) é uma música de origem francesa, composta por Joseph Kosma (1905–1969) em 1945. A letra original, em francês, foi escrita pelo poeta Jacques Prévert, e a versão em inglês por Johnny Mercer.
A composição é considerada um jazz standard — peça amplamente gravada e integrante do repertório comum entre músicos de jazz. Assim, foi regravada por inúmeros artistas, como Frank Sinatra, Miles Davis e Cannonball Adderley, entre outros.
O objeto de estudo para este trabalho é a gravação de “Autumn Leaves” presente no álbum Somethin’ Else (1958), de Cannonball Adderley. A formação dessa gravação é:
Cannonball Adderley — saxofone (líder)
Miles Davis — trompete
Hank Jones — piano
Sam Jones — contrabaixo
Art Blakey — bateria
Sam Jones (1924–1981) foi um importante músico norte-americano, atuando no contrabaixo e no violoncelo. Iniciou sua carreira em Nova Iorque em 1955, gravando com Tiny Bradshaw, Bill Evans, Bobby Timmons, entre outros. Seu trabalho mais reconhecido está ligado ao quinteto de Cannonball Adderley, do qual participou entre 1955–1956 e 1959–1964. No contrabaixo, consolidou fundamentos essenciais para a construção de linhas no hard bop; no violoncelo, gravou diversos álbuns como líder.
Este trabalho resulta da análise da linha de baixo criada por Sam Jones, com o objetivo de compreender sua lógica musical e estudar os motivos e frases que ele desenvolve.
“Autumn Leaves” possui forma AABC, com progressões harmônicas características do jazz, como:
ii–V–I (em tonalidades maiores)
iiø–V–i (em tonalidades menores)
Na gravação do álbum Somethin’ Else, a tonalidade é Sol menor.
Frases e conceitos observados
No chorus — seção específica de uma composição — em que Cannonball começa a tocar, após quatro compassos, percebemos a primeira frase de iiø–V–i desenvolvida por Sam Jones, a qual se torna um motivo recorrente ao longo de toda a música, apresentando variações esporádicas.
Frase iiø - V - i:
O cromatismo utilizado por Sam Jones é pensado para alcançar a fundamental do próximo acorde da sequência, e isso fica muito claro quando analisamos essa frase. Esse recurso cria a sensação de que estamos sempre caminhando para a frente — um dos princípios do walking bass — evitando que o ritmo e a harmonia fiquem estagnados.
Após essa passagem, observamos uma linha de baixo já nos registros mais agudos do instrumento, o que cria um contraste interessante em relação aos caminhos mais graves anteriormente percorridos, também configurando uma frase de ii–V–I.
Percebemos um grande uso das tríades. Estas são muito importantes, pois, a partir delas, conseguimos identificar as sensações (funções) que os acordes provocam e, além disso, utilizá-las como base para caminhar para outros acordes da harmonia. Nesta frase, observamos os cromatismos (G–Gb–F) e (C–B–Bb).
Aprendemos o seguinte movimento: 1–3–5–A.C. — em que 1, 3 e 5 correspondem às notas do acorde (1 = fundamental; 3 = terça; 5 = quinta) e A.C. significa Aproximação Cromática para a fundamental do próximo acorde.
Sam Jones não desenvolve a linha apenas de maneira ascendente. A partir do compasso 89, observamos uma frase de ii–V–I combinando movimentos descendentes e ascendentes.
Um movimento comum utilizado por Sam Jones é o padrão 1–3–6–5 e 1–5–3–1, aplicado para caminhar e preencher um compasso quando apenas um acorde está sendo tocado. O baixista costuma empregar esses padrões de forma sequencial quando há uma progressão I–IV, pois, dessa maneira, conseguimos criar caminhos diatônicos bastante interessantes.
Quando um acorde se mantém por dois compassos consecutivos, Sam Jones utiliza duas frases que se mostraram predominantes na gravação. A primeira delas é uma frase construída em terças sobre um acorde i, seguida por um acorde V.
A primeira oitava dessa frase é intercambiável, ou seja, podemos iniciá-la em uma altura mais grave ou mais aguda. Essa escolha pode depender de diversos fatores artísticos, como um caminho melódico já estabelecido (ascendente ou descendente) ou, simplesmente, de uma decisão estética.
Apenas o primeiro intervalo não é uma terça — sendo ele uma quinta ou uma quarta —, enquanto todos os demais intervalos são terças. Esse movimento permite que o baixista continue caminhando dentro de uma harmonia relativamente estática.
A segunda frase baseia-se em um padrão de oitavas, percorrendo as notas de um acorde para alcançar uma oitava mais aguda e, em seguida, retornar à oitava mais grave.
Essa frase também pode apresentar o movimento contrário, por exemplo:
CONCLUSÃO
Este estudo permite compreender melhor os motivos e frases utilizados por Sam Jones em sua gravação de “Autumn Leaves”, ampliando o nosso vocabulário e refinando nossas ideias musicais.
Jones busca sempre servir à progressão de acordes, conduzindo a linha de forma clara, cromática e diatônica, priorizando a chegada na fundamental do próximo acorde.
Para mais informações, entrem em contato pelo e-mail: femtavares@gmail.com
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Bons estudos e até a próxima coluna!
Fernando Tavares utiliza cordas Giannini e cabos Datalink.

















