Olá, pessoal!
Estou aqui hoje para falar do trabalho "Partimentos com graus conjuntos: uma perspectiva para a análise e realização de esquemas de contraponto e harmonia" de 2021.
Ele foi apresentado no IV Congresso da Associação Brasileira de Teoria e Análise Musical, realizado entre os dias 24 e 27 de novembro de 2021.
O programa do congresso pode ser encontrado no link:
https://tema.mus.br/eventos/public/conferences/1/schedConfs/6/program-pt_BR.pdf
O vídeo da apresentação pode ser assistido no link:
Resumo do trabalho
Os partimentos tinham como principal característica o ensino de contraponto e harmonia por meio de linhas de baixo que instruíam os estudantes de música. Tais linhas possuíam fragmentos e sequências de notas que seguiam determinados modelos apreendidos pelos músicos do período galante para improvisar e compor (figura 1, exemplo de partimento). A partir da compreensão desses movimentos de baixo, o músico os utilizava como base gramatical e como apoio para o sucesso do projeto discursivo organizado pela retórica musical. Esses movimentos de baixo poderiam ser feitos de diversas maneiras: por cromatismos ascendentes ou descendentes; por movimentos padronizados, como o da Romanesca (figura 2), que é caracterizado pelo movimento de quinta descendente, seguido por uma segunda ascendente e por graus conjuntos. Em suma, tais fragmentos instruíam o músico na melhor resolução para determinada sequência, ou partimento.
Assim, o objetivo principal deste trabalho é demonstrar as realizações de partimentos por graus conjuntos. Para tanto, um dos tópicos de ensino do modelo italiano, a Regra da Oitava, é demonstrado de maneira sintetizada, pois, em trabalhos anteriores deste grupo de estudo, ela foi contextualizada em seus pormenores, tanto na sua forma mais comum — a harmonização das escalas ascendentes e descendentes (figura 3) — quanto nas relações de fragmentos entre pequenos movimentos de baixo, com harmonizações particulares para cada grau da escala, denominada regola delle corde del tono.
Figura 3: Exemplo da Regra da Oitava nas formas ascendente e descendente com base no modelo de Fedele Fenroli (1775). Fonte: Tavares (2021, p. 88).
Assim, tendo como base essa regra tão difundida, iniciamos a comparação com outros modelos de harmonização para graus conjuntos. Para tanto, comparamos fragmentos que constituem a base de determinadas schemata e de combinações harmônicas estabelecidas como padrões utilizados pelos compositores e improvisadores, dentre elas a Romanesca (variação galante), Prinner, Do-Re-Mi, Fenaroli, entre outras. Além desses esquemas, comparamos com outro tópico chamado movimento de baixo por grau conjunto ascendente (figura 4) e descendente (figura 5), que demonstram ideias de realizações diferentes das demonstradas na Regra da Oitava.
Figura 4: Movimentos de baixo ascendente nomeados como 5-6, 7-6 e 9-8. Estes movimentos foram editados por Tavares (2021, p. 99) com base nos modelos de Fenaroli (1775) e Sanguinetti (2012)
Figura 5: Movimentos de baixo descendente nomeados como 6-5, 6-6 e 7-6. Estes movimentos foram editados por Tavares (2021, p. 100) com base nos modelos de Fenaroli (1775) e Sanguinetti (2012)
Para fins de compreensão de como montar as realizações de baixo, Fedele Fenaroli (1775) indica três níveis de resolução para os partimentos: (1) apenas com as consonâncias, que, na teoria do partimento, significam os intervalos que constroem os acordes na Regra da Oitava; (2) utilizando as dissonâncias, que seriam intervalos obtidos por meio da preparação por ligadura; e, por fim, (3) a utilização da diminuição e da imitação, que conferem ao partimento o seu estágio de arte.
A compreensão desses três tipos de resolução auxiliará o leitor na próxima etapa do nosso trabalho, que compreende a demonstração dessas ferramentas dentro de um acervo musical. Para tanto, foram utilizadas obras do Padre José Mauricio Nunes Garcia (1767–1830) e de Wolfgang Amadeus Mozart (1756–1791), compositores do período galante.
Como conclusão, afirmamos que este trabalho se enquadra nas pesquisas do LAMUS (Laboratório de Musicologia da EACH/USP), que desenvolve uma atualização constante de informações teóricas cruzadas com modelos analíticos anteriores e posteriores ao período galante, para garantir aos pesquisadores de música as ferramentas adequadas para a análise dos compositores desse período.
PALAVRAS-CHAVE: Partimento. Esquema Galante. Ensino de Música. Contraponto. Harmonia.
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Abraços e até a próxima coluna!





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