Olá, pessoal!
Nesta semana, trago uma coluna especial que escrevi para a edição nº 54, de março de 2007, da antiga revista Coverbaixo, na qual analiso as principais características das linhas de baixo do álbum Selling England by the Pound, da banda Genesis, com o baixista Mike Rutherford.
Este artigo integra minha coleção de estudos sobre contrabaixo, teoria musical e análise musical.
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O Genesis e o álbum Selling England by the Pound
O Genesis foi formado na Inglaterra, em 1967, por Peter Gabriel (vocal, flautas, percussão e oboé), Mike Rutherford (contrabaixo, guitarra e cítara) e Tony Banks (órgão, guitarra, piano e teclado). Com aproximadamente 150 milhões de álbuns vendidos em todo o mundo, o grupo é considerado um dos trinta maiores artistas de todos os tempos.
A banda destacou-se por mais de três décadas e é conhecida por duas fases musicais distintas. Na fase inicial da carreira, durante a década de 1970, tornou-se uma das bandas mais reverenciadas do rock progressivo por apresentar estruturas musicais complexas, instrumentação elaborada e performances de forte caráter teatral. Obras clássicas desse período incluem os álbuns Nursery Cryme, Foxtrot e Selling England by the Pound (1973), o primeiro a alcançar o mercado norte-americano. A partir da década de 1980, sua produção passou gradualmente a dialogar com o universo pop, tornando o grupo mais acessível ao grande público.
O álbum analisado nesta coluna, Selling England by the Pound, é composto por oito faixas e apresenta grande riqueza musical: referências à música erudita, compassos alternados, duetos instrumentais e extensas seções instrumentais. O disco conta com Steve Hackett (guitarras) e Phil Collins (bateria, percussão, backing vocals e vocal em “More Fool Me”), além de Mike Rutherford, Peter Gabriel e Tony Banks.
O baixista inglês Mike Rutherford (nascido Michael John Cleote Crawford Rutherford, em 2 de outubro de 1950, em Guildford, Surrey), além do contrabaixo, toca também guitarra e cítara neste álbum. Por esse motivo, alguns trechos não apresentam linhas de baixo. Sua escrita para o instrumento é conhecida pela precisão técnica, pela construção melódica detalhada e pelo caráter inovador.
As faixas que compõem o álbum são:
“Dancing with the Moonlit Knight”, “I Know What I Like (In Your Wardrobe)”, “Firth of Fifth”, “More Fool Me”, “The Battle of Epping Forest”, “After the Ordeal”, “The Cinema Show” e “Aisle of Plenty”.
Análises
Dancing with the Moonlit Knight
A música abre o álbum de forma marcante, com vários trechos em contraponto, inclusive na base da voz. O trecho analisado corresponde ao dueto entre baixo e teclado que ocorre por volta de 4’59’’. As fórmulas de compasso mudam ao longo do trecho e exigem atenção do intérprete. Sem uma harmonia fixa definida, as frases são realizadas em uníssono sobre a escala de Sol maior, com ocorrências de cromatismo nas passagens.
The Battle of Epping Forest
A quinta faixa apresenta uma linha de baixo muito bem construída, com frases de execução bastante complexa. O trecho transcrito corresponde à base da voz e inicia-se em 1’13’’. A levada foi criada sobre a fórmula de compasso 7/4 e está estruturada na escala de Si maior, alternando-se com outras frases ao longo dos trechos cantados.
I Know What I Like (In Your Wardrobe)
Esta é a música mais conhecida do álbum. Embora simples em sua construção formal, apresenta um refrão marcante e uma linha de baixo muito bem elaborada por Mike Rutherford. Nos dois primeiros compassos, o baixista utiliza a escala de Lá mixolídio e, nos terceiro e quarto, a escala de Ré maior. As células rítmicas são baseadas em subdivisões em semicolcheias.
Firth of Fifth
O trecho analisado está na tonalidade de Si bemol e corresponde à base do tema do teclado, iniciando-se por volta de 4’33’’. A interpretação exige domínio de leitura musical, uma vez que a passagem está escrita na fórmula de compasso 13/16. No segundo compasso, o baixo realiza aproximações cromáticas com oitavas.
A análise de Selling England by the Pound evidencia o papel central desempenhado por Mike Rutherford na consolidação de uma abordagem refinada para o contrabaixo no rock progressivo. Suas linhas combinam precisão rítmica, elaboração melódica e integração orgânica com a estrutura formal das músicas, contribuindo de maneira decisiva para a identidade sonora do Genesis nesse período.
O álbum revela um momento de maturidade artística do grupo e oferece material de grande valor para estudantes, pesquisadores e instrumentistas interessados no papel do contrabaixo na música popular. Espera-se que esta leitura estimule novas escutas atentas e o aprofundamento analítico da obra de Rutherford, reafirmando a relevância do contrabaixo elétrico na construção estética do rock progressivo.





