Olá, pessoal!
Nesta semana, trago uma coluna especial que escrevi para a antiga revista Coverbaixo, na qual analiso as principais características das linhas de baixo do álbum Foxtrot, da banda Genesis, com o baixista Mike Rutherford.
Este artigo integra minha coleção de estudos sobre contrabaixo, teoria musical e análise musical.
Para conferir outros trabalhos e artigos que publiquei, acesse:
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O Genesis e o álbum Foxtrot
O Genesis surgiu na Inglaterra em 1967, tendo como núcleo inicial Peter Gabriel (vocais, flautas, percussão e oboé), Mike Rutherford (contrabaixo, guitarra e cítara) e Tony Banks (órgão, guitarra, piano e teclado). Ao longo da carreira, o grupo alcançou expressiva projeção internacional, com cerca de 150 milhões de discos vendidos, consolidando-se entre os trinta artistas mais bem-sucedidos da história da música popular.
A trajetória da banda estendeu-se por mais de três décadas e pode ser compreendida, de maneira geral, em duas grandes fases. Na primeira, durante os anos 1970, o Genesis destacou-se como um dos principais representantes do rock progressivo, caracterizando-se por estruturas musicais elaboradas, instrumentação sofisticada e apresentações marcadas por forte componente teatral. Entre os álbuns mais representativos desse período encontram-se Nursery Cryme (1971), Foxtrot (1972) e Selling England by the Pound (1973), este último responsável por ampliar de forma decisiva a presença do grupo no mercado norte-americano. A partir da década de 1980, observa-se uma gradual aproximação do repertório com o universo pop, o que ampliou ainda mais o alcance do grupo junto ao grande público.
É nesse contexto histórico e estético que se insere o álbum analisado nesta coluna.
O álbum Foxtrot, lançado em 1972, representa um marco na trajetória artística do Genesis. A obra consolidou a banda como uma das principais referências do rock progressivo britânico, tanto pela complexidade estrutural de suas composições quanto pelo caráter narrativo e teatral de suas performances. A formação responsável pelo álbum reúne Peter Gabriel (vocal, flauta e percussão), Mike Rutherford (contrabaixo e guitarra), Tony Banks (teclados), Steve Hackett (guitarra) e Phil Collins (bateria e vocais).
O disco apresenta um conjunto de obras que combinam elementos de tradição erudita, experimentação tímbrica e uso sofisticado de métricas e texturas musicais. Entre as faixas mais emblemáticas, destacam-se Watcher of the Skies, com sua introdução marcada pelo mellotron, e a suíte Supper’s Ready, composição de grande fôlego estrutural e expressivo impacto narrativo, frequentemente considerada uma das criações mais ambiciosas do gênero.
Em Foxtrot, o Genesis aprofunda a integração entre conteúdo poético, teatralidade e elaboração instrumental, desenvolvendo uma linguagem própria que teria repercussão duradoura na estética do rock progressivo. Nesse contexto, o contrabaixo de Mike Rutherford desempenha papel fundamental, articulando sustentação harmônica, desenho melódico e construção rítmica de maneira orgânica e expressiva ao longo do álbum.
Genesis - Foxtrot
Watcher of the Skies
Este trecho corresponde à base da voz (2’19’’) e é executado sobre a fórmula de compasso 6/4. O interessante, nesse caso, é que o compasso não é subdividido em dois tempos fortes de três tempos cada, como ocorre normalmente, mas sim em uma organização rítmica que sugere quatro tempos seguidos de dois. Atenção especial deve ser dada ao padrão rítmico, que inclui notas executadas em staccato. A frase é construída a partir da quinta e da oitava do acorde.
Time Table — 1
Este trecho ocorre por volta de 1’04’’ e corresponde à base do refrão. Nos dois primeiros compassos, é utilizada a escala de Dó menor dórico; no terceiro compasso, a escala pentatônica de Si bemol. No quarto compasso, são executadas as tônicas de cada acorde no contratempo.
Time Table — 2
Esta base corresponde ao solo de piano que ocorre durante o interlúdio da música (1’43’’), momento em que o baixo realiza um pequeno solo. No primeiro e no terceiro compassos, o baixista trabalha sobre a tríade do acorde. No segundo e no quarto compassos, a frase é construída sobre a pentatônica de Mi maior. O quinto compasso utiliza a pentatônica de Ré maior e o sexto, a escala menor de Si.
Get ’Em Out by Friday — 1
Esta frase corresponde à introdução da música. Nos três primeiros compassos, é utilizada apenas a tônica do acorde e, a partir do quarto compasso, o baixista emprega a escala de Lá maior para construir a frase. Nos compassos 6, 7 e 8, volta-se à tônica, e, a partir do 9º compasso, passa-se à escala de Fá♯ menor.
Get ’Em Out by Friday — 2
Este trecho corresponde à base da voz e é repetido diversas vezes ao longo da música. A frase é construída sobre a pentatônica de Lá menor e utiliza como elemento fundamental a célula rítmica de tercinas.
Supper’s Ready
Durante a maior parte desta música, o baixista toca violão, enquanto as linhas de baixo são realizadas por meio do pedal Moog. Em boa parte do trecho, é utilizada apenas a tônica do acorde. Na sexta seção — “Apocalypse in 9/8” — a frase principal da base da voz e do solo de teclado é construída sobre a fórmula de compasso 9/8. Nesse trecho (16’15’’), a maior dificuldade encontra-se na rítmica, marcada por uma acentuação bastante incomum.
A análise das faixas de Foxtrot evidencia a relevância do trabalho de Mike Rutherford na consolidação de uma linguagem própria para o contrabaixo dentro do rock progressivo. Suas linhas aliam clareza estrutural, senso melódico e precisão rítmica, articulando-se de forma orgânica com os arranjos complexos característicos do Genesis nesse período. Ao mesmo tempo, observa-se uma escrita que respeita o papel funcional do instrumento, mas que, sempre que necessário, assume protagonismo musical com equilíbrio e musicalidade.
O álbum confirma o momento de maturidade criativa da banda, na qual a integração entre narrativa, teatralidade e elaboração instrumental alcança alto grau de consistência estética. Para estudantes, pesquisadores e instrumentistas, Foxtrot constitui um material de grande valor analítico, permitindo compreender como o contrabaixo pode atuar de maneira expressiva e estruturante em um contexto de linguagem expandida.
Espero que estas observações contribuam para uma escuta mais atenta e reflexiva do trabalho de Rutherford e reforcem a importância do estudo sistemático das linhas de baixo no repertório do rock progressivo.
Link para ouvir o álbum








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